Quando se trata de imigrantes, linguagem também importa

Jorge Ramos

Jorge Ramos

  • Monica Almeida/The New York Times

    Protestos em Phoenix contestam nova lei do Arizona (EUA), que criminaliza imigrantes ilegais

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As palavras que usamos podem identificar o passado e predizer o futuro. A forma como definem uma situação ou problema às vezes tem o potencial de decidir seu resultado. Por esse motivo, é importante que paremos de empregar o termo “ilegal” ao nos referir aos imigrantes ilegais nos Estados Unidos. Esta mudança é um primeiro passo fundamental para conseguir a reforma da imigração.

Muitos norte-americanos costumam usar os termos “ilegais” ou “estrangeiros ilegais” ao se referir aos imigrantes sem documentos. Quando esses termos são usados, parecem sugerir que criminosos e terroristas estão chegando a nossas portas – o que é uma forma totalmente equivocada de ver as 11 milhões de pessoas que, na maioria, buscam os empregos que os norte-americanos evitam.

É verdade que esses imigrantes violaram a lei ao ingressar no território dos Estados Unidos sem documentos, ou quando prolongam sua estadia aqui sem pedir o visto correspondente. Mas, o que dizer das obrigações legais das dezenas de milhares de companhias e indivíduos que os contratam? Se os trabalhadores são chamados “ilegais”, por que não nos referimos aos que os contratam como “companhias ilegais”, ou “proprietários ilegais de empresas”, ou “patrões ilegais”? Não são culpados de violar a lei?

O argumento moral para resolver a difícil situação dos trabalhadores sem documentação pode se resumir numa simples frase da Declaração de Independência: “Todos os homens são criados iguais”. A linguagem não poderia ser mais clara; não diz nem sequer sugere que só os cidadãos e os residentes legais são iguais. Não obstante, os imigrantes não são tratados como iguais e nem se pensa neles dessa forma.

Esta desigualdade fundamental deve mudar, e a mudança começa frequentemente com a linguagem. As palavras importam. A juíza associada Sonia Sotomayor decidiu usar o termo “imigrante indocumentado” numa opinião escrita para a Corte Suprema dos Estados Unidos em dezembro passado. Foi o primeiro uso que se fez do termo por parte de um juiz, ainda que o termo “imigrante ilegal” tenha aparecido em muitas sentenças. É assim que a mudança acontece: palavra por palavra.

Quando falo com políticos norte-americanos, costumo perguntar se eles estão dispostos a usar a palavra “indocumentado” em vez de “ilegal”.

O senador do Arizona John McCain, por exemplo, quase sempre utilizou o termo “indocumentados” durante sua campanha presidencial de 2008. Barack Obama também.

Durante sua presidência, Obama raramente empregou o termo “ilegal” referindo-se aos imigrantes. Houve uma exceção: seu discurso de 1º de julho sobre a reforma da imigração na America University, em Washington D.C., no qual ele recordou que sempre nos definimos como “uma nação de imigrantes”.

Convencer Obama e McCain de usar as palavras corretas é um início, mas não é suficiente. Devemos convencer o Congresso e a elite política norte-americana a seguir seu exemplo. Só assim os norte-americanos comuns o farão.

Quando entrevistei Newt Gingrich, um influente republicano e ex-presidente da Câmara de Representantes, perguntei se ele estaria disposto a não usar mais a palavra “ilegal” para se referir aos imigrantes indocumentados.

“Eu ficaria feliz de usar a palavra 'indocumentado'”, disse Gingrich, “desde que possamos ter um acordo no qual todos estejam dentro de um sistema de legalidade.”

Também perguntei ao presidente do Partido Republicano, Michael Steele, porque usava o termo “estrangeiros ilegais” para se referir aos indocumentados. “Bem”, respondeu, “se estão aqui ilegalmente é preciso chamar pelo que são.”

A esperança é que em breve Steele e outros protagonistas políticos logo falem desses imigrantes com respeito e até mesmo agradecimento. Não é um segredo que os indocumentados contribuem muito mais com a economia do que recebem dela. Merecem viver livres de medo e da perseguição em um país de iguais.

Esta liberdade chegarão quando mudarmos a linguagem que usamos para descrever os indocumentados. A reforma imigratória depende disso.

Tradutor: Eloise De Vylder

Jorge Ramos

O jornalista Jorge Ramos é um dos mais conceituados analistas da questão hispânica nos Estados Unidos.

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