Para imigrantes sem documentos no Arizona, pouco mudou

Jorge Ramos

Jorge Ramos

Em Phoenix (Arizona)
  • Mario Tama/Getty Images/AFP

    Pessoas fazem manifestação contra a nova legislação anti-imigração do Arizona

    Pessoas fazem manifestação contra a nova legislação anti-imigração do Arizona

A única notícia proveniente do Arizona é que pouco mudou aqui, apesar da entrada em vigor da severa nova lei estadual de imigração, a SB1070. Os imigrantes sem documentos continuam sendo perseguidos, assim como no restante dos EUA. E essa injustiça não será corrigida tão cedo.

É verdade que a situação poderia ter sido pior se a juíza Susan Bolton, do tribunal distrital federal no Arizona, não tivesse suspendido as partes mais controversas da lei. Se não fosse assim, eu não teria me sentido tão à vontade caminhando outro dia pelo centro de Phoenix, sem meu passaporte ou a carteira de motorista. As suspeitas de alguns policiais talvez tivessem sido despertadas pela cor de minha pele morena ou por meu ligeiro sotaque, e tivessem buscado uma desculpa para me deter e perguntar se eu estava legalmente nos EUA. Mas isso não acontecerá, por enquanto.

A apelação do governo do estado do Arizona relativa à SB1070 quase certamente terminará na Suprema Corte dos EUA. Mas é uma pena que seja assim, porque o debate deveria ser resolvido em Washington - no Congresso - e não nos tribunais.

A falta de liderança em Washington nessa questão permitiu que o Arizona se encarregasse dele. O presidente Barack Obama violou sua promessa de campanha de apresentar uma proposta de reforma migratória durante seu primeiro ano no cargo. Os democratas no Congresso não se atrevem a votar sobre o tema antes das eleições de novembro, temendo perder sua maioria na Câmara de Deputados. E os republicanos parecem ter perdido totalmente a voz: há três anos, 11 senadores republicanos - incluindo John McCain, do Arizona - votaram por uma reforma migratória, mas hoje, quando esse debate se apresenta, deixaram de defender a causa.

O governo do México também brilha por sua ausência no debate. Embora sua chancelaria tenha feito declarações de repúdio à lei do Arizona, estas não tiveram o menor efeito.

Se o governo de Felipe Calderón realmente quer promover uma mudança no estatuto legal dos 11 milhões de imigrantes sem documentos nos EUA, deve contratar as melhores firmas de relações públicas e lobby em Washington para conquistar o apoio dos 218 deputados e 60 senadores necessários para a aprovação de uma legislação ampla que resolva a situação. Calderón deveria lembrar o exemplo do ex-presidente mexicano Carlos Salinas de Gortari; Salinas cometeu muitos atos censuráveis durante seu período de seis anos que começou em 1988. Mas sabia fazer lobby, e o fez bem.

A nova lei de imigração do Arizona, que entrou em vigor enfraquecida, é uma consequência da falta de iniciativa de Washington e da falsa percepção de que os imigrantes sem documentos são responsáveis por muitos dos maiores problemas do estado e do país. Mas digamos as coisas claramente: o Arizona não é o México.

Apesar da violência ao longo da fronteira, os índices de criminalidade caíram em todos os EUA nos últimos anos - incluindo no Arizona -, segundo estatísticas compiladas pelo Departamento de Justiça. Não podemos culpar todos os imigrantes pelos crimes que alguns poucos cometem.

Também não é verdade que os imigrantes tirem os trabalhos de cidadãos americanos. Pelo contrário, criam empregos, pagam impostos e desempenham serviços que poucas pessoas querem fazer. Eu não vi milhões de cidadãos nascidos nos EUA pedindo trabalho para fazer as colheitas de tomate e laranjas na Califórnia ou na Flórida.

Também não é verdade que os imigrantes abusam dos serviços sociais oferecidos neste país. Um relatório de 2008 da Comissão Kaiser revelou que em média 20% dos americanos utilizam os prontos socorros hospitalares por ano, comparados com apenas 13% da população nascida no estrangeiro.

Isto é, os três principais argumentos empregados pelos adversários da reforma migratória - que aumentam o crime, que tiram empregos dos americanos e que abusam do sistema - simplesmente não são verdadeiros.

E não é só o Arizona; o país inteiro esteve pendente de medidas improvisadas e temporárias para resolver um dos assuntos mais complexos de nosso tempo. Ninguém parece estar procurando uma solução autêntica em longo prazo.

É óbvio que as leis de imigração dos EUA não serão reformadas este ano. Se as coisas continuarem assim, o governo Obama deportará aproximadamente 400 mil imigrantes em 2010.

Contrariando sua grande tradição de generosidade em relação aos imigrantes, o país mais poderoso do mundo está perseguindo o setor mais vulnerável de sua população. Isso é totalmente antiamericano.

Sim, apesar da recente mudança no Arizona, tudo continua igual.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Jorge Ramos

O jornalista Jorge Ramos é um dos mais conceituados analistas da questão hispânica nos Estados Unidos.

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