Como perder as eleições intermediárias

Jorge Ramos

Jorge Ramos

  • Mario Tama/Getty Images/AFP

    Pessoas fazem manifestação contra a nova legislação anti-imigração do Arizona

    Pessoas fazem manifestação contra a nova legislação anti-imigração do Arizona

Se os republicanos querem perder uma eleição depois da outra, a única coisa que precisam fazer é continuar sua oposição a uma verdadeira reforma da imigração, propor mais leis como a controversa nova lei de imigração do Arizona e continuar insistindo a favor de uma emenda constitucional que priva os filhos de imigrantes não documentados de sua cidadania norte-americana. Essa é a fórmula perfeita para perder o voto hispânico – e além disso, todas as eleições durante um longo tempo.

Talvez alguns republicanos acreditem que instigar o sentimento contra os imigrantes nos Estados Unidos lhes renderá votos nas eleições de novembro. E a curto prazo, talvez estejam certos. Mas a longo prazo, atacar o grupo minoritário que cresce mais rapidamente no país é um tipo de suicídio político.

Não é bom para os republicanos serem vistos como inimigos da população hispânica. Os 10 milhões de eleitores hispânicos que participaram das eleições presidenciais passadas se transformarão algum dia em 20 milhões – e essa tendência não vai se reverter.

Este ano já não será aprovada a reforma nacional da migração, e a responsabilidade por esse fracasso deve ser atribuída também aos democratas e ao presidente Barack Obama. Mas eu já escrevi muito sobre a promessa fracassada de Obama de iniciar a reforma durante seu primeiro ano de governo; foquemos agora nos republicanos.

Para obter os 60 votos necessários para a aprovação da reforma da imigração no Senado, vários republicanos teriam que apoiar a medida. Onde estão os 11 senadores republicanos que votaram a favor de uma reforma migratória há apenas três anos, quando o presidente George W. Bush lutou por uma iniciativa de lei que aumentasse o controle da fronteira, por criar um programa de trabalhadores convidados e iniciar o processo de legalizar cerca de 12 milhões de imigrantes sem documentos? Agora não vejo nenhum desses senadores dando um passo adiante – nem um só.

O que aconteceu com o senador do Arizona, John McCain, que me disse durante sua campanha presidencial que defendia um “caminho para a cidadania” para os imigrantes não-documentados? E nessa então, McCain se referiu a esses imigrantes como “filhos de Deus”, mas hoje McCain é contra dar a eles um status legal.

O que aconteceu com o senador Lindsey Graham, republicano de Carolina do Sul, que em março, junto com o democrata Charles Schumer, de Nova York, apresentou um pacote sensato de reforma imigratória? Quatro meses depois, Graham disse à FoxNews que era um “erro” outorgar a cidadania automática aos filhos nascidos nos Estados Unidos de pais imigrantes não-documentados. O que poderia ter provocado esta mudança radical de opinião em Graham, exceto o desejo de ganhar a preferência dos eleitores mais conservadores do país, que tendem a favorecer soluções e castigos mais severos?

Digamos as coisas claramente: alterar a Emenda 14 da Constituição – que garante a cidadania norte-americana a todos os nascidos nos Estados Unidos – não vai resolver o problema fundamental: 11 milhões de imigrantes não-documentados vivem e trabalham no país. São vitais para a nação e sua economia e, entretanto, vêem-se obrigados a viver nas sombras.

A teoria conhecida em inglês como “attrition through enforcement” - que sustenta que os não-documentados sairão do país por conta própria se a vida ficar insuportável para eles aqui – está equivocada. Eles não irão. Apenas se mudarão para uma cidade ou Estado diferentes. A fome é uma motivação mais poderosa que o medo.

O apoio republicano à extrema direita está condenado ao fracasso. Até agora, o debate em torno da reforma da Constituição não passa de politicagem. Não há evidências de um amplo apoio nacional para uma mudança tão radical no futuro. Será que os norte-americanos estão realmente dispostos a deportar bebês e colocar policiais nas maternidades dos hospitais?

Estou surpreso, entretanto, como mudou o tom do debate sobre o tema da migração durante os últimos meses. Ele foi praticamente sequestrado pelos extremistas. A Casa Branca perdeu o controle do debate, assim, em lugar de estarem discutindo os méritos de uma verdadeira reforma migratória, os jornalistas estão reportando sobre as consequências da nova lei do Arizona e a Emenda 14.

Talvez esta estratégia ajude os republicanos a atrair certos eleitores em novembro. Mas os eleitores hispânicos têm uma memória muito boa, e não vão esquecer quem os atacou num de seus momentos mais vulneráveis.

A verdade é que os latinos nunca acreditaram realmente que os republicanos estariam ao seu lado e promoveriam uma reforma migratória. E se os republicanos conquistarem o controle da Câmara dos Representantes em novembro, poderão passar anos antes que qualquer iniciativa autêntica de reforma da imigração seja colocada em votação. Até então, a sorte de milhões de imigrantes não-documentados continuará indecisa.

Enquanto isso acontece, o voto hispânico só aumentará de valor. Republicanos, estejam avisados.

Tradutor: Eloise De Vylder

Jorge Ramos

O jornalista Jorge Ramos é um dos mais conceituados analistas da questão hispânica nos Estados Unidos.

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