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O México de Peña Nieto: mais violência, poucos resultados

29.nov.2013 - Efe
Ônibus em que viajavam dois policiais federais mexicanos fica destruído após emboscada em Parácuaro, Michoacán. Os policiais morreram Imagem: 29.nov.2013 - Efe

09/12/2013 00h01

O governo do presidente mexicano Enrique Peña Nieto é, em muitos sentidos, igual ao de seu antecessor, Felipe Calderón: muitos mortos e poucos resultados.

Já lhe demos um ano e nada mudou no México. Os mexicanos continuam morrendo, a guerra contra as drogas está sendo perdida, os narcotraficantes e grupos de autodefesa atuam com impunidade e não há um rumo claro para reduzir a violência.

A esta altura, já deveríamos saber exatamente qual é o plano e a estratégia de Peña Nieto para evitar tantos assassinatos ligados ao narcotráfico. Mas a única coisa clara é que a política do governo no combate às drogas se baseou no silêncio: acreditam que, ao não falar do assunto em público, ele perderá importância. É a atitude do avestruz: esconder a cabeça e não ver nada.

A política de comunicação da presidência é muito simples: não falamos do narcotráfico e suas mortes. A mídia, portanto, informa menos a respeito. E isso dá um espaço ao governo para manobrar e ganhar tempo. Mas essa estratégia tem um problema: os mortos continuam aí.

Depois de um ano, a lua-de-mel com Peña Nieto já deveria ter terminado. Deveríamos exigir resultados concretos. Mas jornalistas e políticos, por motivos diversos, continuam lhe fazendo a corte e fingindo que não veem. Há dias de valas comuns clandestinas, outros de chacinas e quase todos com uma ausência notória do Estado. Policiais e soldados simplesmente não puderam vencer os narcos.

Aqui estão os números do fracasso. Nos primeiros 11 meses do governo Peña Nieto, de dezembro de 2012 a outubro de 2013, houve 17.068 assassinatos, isto é, uma média de 1.551 homicídios dolosos por mês. Em nenhuma parte do mundo isso é um êxito. São mais mortos nesses primeiros 11 meses de Peña Nieto que em todo o ano de 2009 (que foram 16.118 assassinatos).

Nesse aspecto, o governo de Peña Nieto em 2013 é como o de Calderón em 2009. Não há qualquer diferença clara. Para que não haja dúvidas da veracidade dos números, podem comprovar os dados no Sistema Nacional de Segurança Pública da Secretaria de Governo. Aqui está o link: bit.ly/gy5Dtz. Isto inclui só as denúncias apresentadas ao Ministério Público. Há muito mais mortes que não são relatadas.

O governo de Peña Nieto diz que as coisas estão melhorando. Isso é jogar com números e palavras. O que acontece é que comparam os 17.068 assassinatos que ocorreram nos primeiros 11 meses do governo de Peña Nieto com os 20.010 assassinatos que teve Calderón em seus últimos 11 meses. Assim, nessa comparação, há uma melhora de 15%. Mas na realidade não há uma mudança de estratégia que sugira que a batalha contra os narcotraficantes está sendo ganha. E continuam sendo mortos demais.

"O México é um exemplo claro de que o esforço militar contra as drogas não funciona", disse-me em uma entrevista Pedro Abramovay, ex-secretário nacional de Justiça do Brasil e uma das vozes que mais conhecem a luta contra as drogas no mundo. "O discurso de Peña Nieto mudou, mas não está claro qual é a alternativa a esse modelo [de Calderón]."

É a mesma crítica da Human Rights Watch. Peña Nieto "indicou que a prioridade é reduzir a violência", escreveu José Miguel Vivanco, um dos diretores da HRW, mas "até agora não definiu um plano concreto sobre como alcançar esse objetivo".

É justo dar a todos os presidentes um tempo para definir suas estratégias, para aprovar planos e executar suas ideias. Mas depois de um ano é preciso exigir resultados. Cinquenta e um assassinatos por dia em média é o melhor que Peña Nieto pôde fazer. É um recorde terrível.

Peña Nieto chegou ao poder com um sério déficit de legitimidade. Milhões de mexicanos acreditam que ele ganhou com fraude as eleições de 2012. Portanto, a única maneira de se justificar com esses mexicanos é governar bem.

As reformas fiscal, educacional e energética são fundamentais para governar bem. O México é um país de enormes distâncias entre ricos e pobres. É preciso enfrentar isso. Mas, enquanto tantos mexicanos continuarem morrendo, será impossível melhorar a imagem de Peña Nieto, por mais que penteiem seu topete nas fotografias.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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