Opinião: Visita de Obama não deve causar mudanças na ditadura cubana

Jorge Ramos

Jorge Ramos

  • Andrew Harnik/AP

    Barack Obama e Raúl Castro na sede da ONU, em Nova York, em setembro de 2015

    Barack Obama e Raúl Castro na sede da ONU, em Nova York, em setembro de 2015

Como não vou querer que haja uma democracia em Cuba, que os cubanos não sejam reprimidos nem censurados e que os ditadores Raúl e Fidel Castro apodreçam em uma prisão?

A grande ilusão é que a recente abertura dos EUA para Cuba e a próxima viagem este mês do presidente Barack Obama a Havana produzam uma mudança na ilha. Mas a verdade é que a ilha continua sendo uma brutal ditadura, e não fez uma só mudança significativa desde que reabriu sua embaixada em Washington.

Não há visitas milagrosas. Muitos acreditaram, equivocadamente, que a visita do papa João Paulo 2º em 1998 promoveria uma reforma democrática. "Oxalá Cuba, com todo o seu magnífico potencial, se abra ao mundo, e oxalá o mundo se abra a Cuba", pediu o papa. Mas Cuba não se abriu para nada.

Tampouco o fez com a visita no ano passado do papa Francisco. O pontífice argentino se comportou com um incompreensível servilismo, não quis se reunir com dissidentes e até chamou de "presidente" o ditador Raúl Castro.

Cuba tem algo que faz muitos morderem a língua. O escritor colombiano Gabriel García Márquez defendeu até sua morte a Fidel Castro, um tirano que bem poderia ser o protagonista de sua novela "O Outono do Patriarca".

Se dois papas e um prêmio Nobel não mudaram nem um pouco o regime cubano, minhas esperanças de que um presidente americano que já está de saída o faça são muito poucas.

Milhares de cubano-americanos também têm suas dúvidas: 40% dos cubanos que vivem nos EUA rejeitam a nova política da Casa Branca para Cuba, segundo uma pesquisa nacional da Bendixen & Amandi. Por quê? Primeiro, nunca foram consultados, e não acreditam nos poderes mágicos de Obama. Além disso, um dia viveram dentro do monstro.

Não são histórias. "O regime cubano continua reprimindo indivíduos e grupos que criticam o governo e que promovem os direitos humanos", concluiu um relatório da Human Rights Watch (uma organização de defesa dos direitos humanos) de 2014, e tudo continua exatamente igual. (Aqui está o relatório: https://www.hrw.org/world-report/2014/country-chapters/cuba.)

Por muitos anos se repetiu a falácia de que não haveria castrismo sem Fidel Castro (assim como se disse que não haveria chavismo sem Hugo Chávez na Venezuela). Mas Fidel, doente, transferiu seu poder a seu irmão Raúl e agora temos um novo ditador que diz que se aposentará em 2018.

Mas entendamos algo de uma vez por todas: as ditaduras nunca terminam pela generosidade de seus tiranos. É preciso derrubá-las.

A teoria de Obama é que o "poder brando" dos EUA --com mais contatos, mais diplomacia, mais vistos, mais investimentos e mais comunicações-- deveria acabar pouco a pouco com a ditadura marxista. Por isso a insistência de terminar com o embargo americano à ilha; é algo que os Castro querem e também uma parte fundamental da nova estratégia de Obama.

Um dia perguntei a um alto funcionário dos EUA por que não chamavam de "ditador" a Fidel e Raúl Castro. Sua resposta foi um poema: porque o título oficial que o governo cubano lhes atribui é outro. Por isso, quando Obama aterrissar em Cuba em 21 de março, que ninguém se surpreenda com os sorrisos e os discursos, nos quais se referirá ao ditador da vez como "presidente".

Faz 18 anos que me negam o visto de jornalista para entrar em Cuba. Não gostaram das reportagens que fiz na ilha em 1998 sobre os dissidentes e jornalistas independentes. E cumpriram sua promessa de me deixar fora. Não há novidade em que uma ditadura atue como uma ditadura.

Mas espero, um dia, regressar com meus dois filhos. Paola e Nicolás nasceram em Miami, têm sangue cubano e eu gostaria de acompanhá-los aos lugares onde seus avós cresceram. Imagino que seria uma visita parecida com a que fiz ao Chile depois da saída de Augusto Pinochet ou à África do Sul após o fim do apartheid. Os fins das ditaduras sempre são de festa.

Então, e só então, saberemos se Obama tinha razão.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Jorge Ramos

O jornalista Jorge Ramos é um dos mais conceituados analistas da questão hispânica nos Estados Unidos.

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