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O caso Volkswagen e a ética das grandes empresas

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

30/09/2015 12h57

Os desdobramentos da fraude dos controles antipoluição praticada pela Volkswagen nos Estados Unidos suscitaram uma série de interrogações e de polêmicas. Quem iniciou e deu cobertura à trapaça? Embora o CEO e vários outros altos responsáveis da empresa tenham se demitido ou mandados para a rua, ainda há pontos obscuros.

Mais importante proprietário da VW, com 20% de ações que lhe dão um direito de veto na direção da firma, o Estado da Baixa Saxônia (um dos 16 Estados da Alemanha), não sabia de nada, conforme declarou o ministro da Economia do Estado (Lander).

O fato é grave e chamou a atenção para outros casos de má administração e falhas nos controles corporativos das grandes empresas. Mas também mostrou a incompetência ou a inadequação dos órgãos públicos de controle da poluição na Europa e nos Estados Unidos.

Na realidade, quem levantou a pista sobre as práticas delituosas da VW foi a ICTT, uma pequena ONG americana de parcos recursos. Como explicou um de seus diretores, a descoberta se deu quase por acaso: "nós não esperávamos achar alguma coisa" no teste. Só depois da denúncia da ICTT é que os organismos oficiais de controle americanos fizeram a investigação mais aprofundada que desembocou na denúncia da firma alemã. Agora, na Alemanha, na França, nos Estados Unidos e em vários outros países, as autoridades e as agências governamentais de controle, admitindo implicitamente que falharam, prometem mais meios e mais rigor para os testes antipoluição.

No meio tempo, apareceram propostas mais criativas e mais transparentes de vigilância sobre as manipulações dos fabricantes de automóveis. A mais interessante consiste em obrigar as fabricantes de carro a usar um código aberto (open source), permitindo o acesso dos usuários à caixa preta informática (proprietary code) que pauta o funcionamento de cada carro. Foi nessa caixa preta que a VW ocultou o software que lhe permitiu escapar aos controles antipoluição.

Naturalmente, a proposta pode parecer utópica, visto que a confidencialidade do proprietary code é a alma do negócio na indústria do automóvel e de muitos outros setores. Porém, os prejuízos da VW e dos outros fabricantes de carros a diesel atingem tais proporções que poderão incitar à adoção do open source por uma parte das indústrias.

Como escreveu no seu blog David Bollier, um ativista pela democratização da informática, se os organismos governamentais quiserem impedir estragos no meio ambiente e na segurança antes dos desastres, eles devem impor aos industriais a obrigatoriedade do código aberto em suas máquinas.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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