Promessas e tragédias no 5º aniversário da Primavera Árabe

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

Em Paris
  • Borni Hichem/ AFP

    Protesto em Túnis nos primeiros momentos da Primavera Árabe, em fevereiro de 2011; 5 anos depois, a Tunísia foi o único país que conseguiu estabelecer uma frágil democracia

    Protesto em Túnis nos primeiros momentos da Primavera Árabe, em fevereiro de 2011; 5 anos depois, a Tunísia foi o único país que conseguiu estabelecer uma frágil democracia

Janeiro de 2011. Após de três anos de manifestações intermitentes contra o seu regime, o presidente Ben Ali abandona Túnis e se refugia na Arábia Saudita. Duas semanas mais tarde, o presidente Mubarak começa a ser contestado na praça Tahrir, no Cairo. No poder há trinta anos, Mubarak é em seguida deposto e encarcerado pelos novos dirigentes do Egito. Na Líbia, atacado por manifestantes, Kadhafi é morto em outubro de 2011.

Violências e manifestações de intensidade variada ocorreram noutros países da região sem que os respectivos regimes autocráticos desabassem. Mas no Iêmen, na Líbia e na Síria, os levantes populares desembocaram em sangrentas guerras civis que não cessaram até hoje. Um mapa da "The Economist" ilustra a extensão do desastre.

No conjunto de países atravessados pelos eventos que em 2011 receberam o esperançoso título de Primavera Árabe, só a Tunísia conseguiu estabelecer uma frágil democracia. Uma análise do "Huffington Post" demonstra o papel fundamental que o partido muçulmano democrático Ennahdha ("Movimento da Renascença", em árabe) teve na normalização da Tunísia.

Nos outros países a situação permanece instável, sendo que a Líbia e Síria compartilham com o Iraque um processo de desmonte do Estado nacional. Na esteira da tragédia, avança a barbárie do autodenominado Estado Islâmico, impulsionando o movimento que conduz refugiados e "migrantes econômicos" (pessoas procurando emprego) de todo Magrebe e do Oriente Médio às fronteiras da Europa.

Por que tudo deu tão errado nesses países? O "Guardian" tenta responder à pergunta, sublinhando que a derrubada das ditaduras árabes não foi completada pela tarefa, bem mais complexa, de estruturação da vida político-partidária.

Ao fim e ao cabo, o continente americano e, em particular, a América Latina, apesar de todos os dramas do passado e do presente, aparece como a única região do mundo pós-colonial integralmente dotada de inquestionáveis Estados-nação. A explicação dessa singularidade demanda mais espaço e bastante notas de pé de páginas. Mas é bom lembrar, mais uma vez, a performance histórica da unidade nacional brasileira numa altura em que o noticiário sobre a atualidade do país se afigura tão sombrio.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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