O impasse político na Espanha e na Grécia

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

De Paris
  • Daniel Ochoa de Olza/AP

    13.jan.2016 - O premiê Mariano Rajoy observa a passagem de Pablo Iglesias no Parlamento em Madri, na Espanha

    13.jan.2016 - O premiê Mariano Rajoy observa a passagem de Pablo Iglesias no Parlamento em Madri, na Espanha

Na última sexta-feira (22), Mariano Rajoy, chefe do Partido Popular (PP) vencedor das eleições legislativas com 123 deputados, reconheceu que não tinha maioria parlamentar suficientemente ampla para compor um novo governo conservador na Espanha.

Na sequência, Pablo Iglesias, líder de Podemos (69 deputados), o partido de esquerda anti-austeridade, propôs ao Partido Socialista (PSOE, 90 deputados) a formação de uma coligação governamental.

Contudo, as exigências de Iglesias pareceram excessivas (posto de vice-primeiro ministro e controle de vários ministérios importantes), levando o PSOE a recusar a proposta. O PSOE tentou aproximar-se do Ciudadanos (40 deputados), partido centro-direita, mas não obteve sucesso na sua pretensão de formar o novo governo.

Na realidade, o PSOE enfrenta um dilema similar ao que conduziu o Partido Socialista grego (PASOK) à derrocada. Desgastado por anos de gestão governamental que modernizou a Espanha mas enveredou em políticas econômicas desastradas e na corrupção, o PSOE viu surgir à sua esquerda as lideranças jovens e carismáticas do Podemos.

Seguindo a estratégia que deu resultado na Grécia, onde o partido anti-austeridade Syriza engoliu o eleitorado de esquerda decepcionado com o PASOK, Podemos quer também fagocitar o PSOE na Espanha. Daí a reação dura do PSOE à proposta de coalizão formulada por Podemos, acusado pelos socialistas de praticar "chantagem" para entrar no governo.

Mas o exemplo grego tem também outros aspectos que desfavorecem Podemos. Alexis Tsipras completou nesta segunda (25), um ano de sua impressionante vitória eleitoral na direção de Syriza. De lá para cá, venceu ainda um referendo em julho e as legislativas antecipadas de setembro.

Mas suas dificuldades aumentaram nas últimas semanas. Pressionado pelos credores do FMI e da União Europeia, Tsipras tornou mais rígidas as condições das aposentadorias e da Previdência social, atingindo em cheio parte de seu eleitorado.

Pequenos proprietários rurais, profissionais liberais e aposentados manifestam agora contra o governo. Uma sondagem publicada na última sexta-feira indicou que 85% dos gregos estão descontentes com o governo de Syriza, que também encarou um dissidência parlamentar formada por 25 deputados.

No final das contas, o exemplo da Grécia pode também jogar em favor do PSOE. Vendo Syriza, o engolidor do PASOK, ser engolido pelos credores externos, eleitores de esquerda espanhóis podem achar que o Podemos conhecerá os mesmos impasses quando governar a Espanha. 

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

UOL Cursos Online

Todos os cursos