Ideia britânica de abandonar a União Europeia tem um pouco de inspiração em Hitchcock

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

Em Londres
  • ANDREW COWIE/AFP

    Covent Garden, em Londres

    Covent Garden, em Londres

O filme Frenesi (Frenzy, 1972) é uma das obras primas de Alfred Hitchcock. Críticos de cinema analisam Frenesi no contexto da temática hitchcockiana onde há o inocente condenado, e sugestões sobre sadismo, misoginia e sexualidade reprimida. No entanto, há uma outra leitura de Frenesi que exprime o dilema britânico das últimas décadas: ser ou não ser membro da União Europeia (UE). De fato, Frenesi apresenta, com ironia, uma visão sutilmente anti-UE. A trama se desenrola no grande mercado de frutas e legumes de Covent Garden. Hitchcock gostava do lugar. Seu pai trabalhava ali e ele conhecia a feira e os feirantes desde a sua infância. A fartura das barracas do mercadão multissecular demonstrava, em 1972, a abundância dos frutos que o Reino Unido recebia da Comunidade Britânica, de suas ex-colônias espalhadas no mundo. Covent Garden retratava a autossuficiência britânica, insular e pós-imperial, que se contrapunha às alegadas vantagens da adesão à UE.

Como os fãs de Hitchcock se lembram, o comissário Oxford, que investiga assassinatos de um serial killer em Covent Garden, tem uma mulher pró-europeia. Como a Inglaterra estava no processo de adesão à UE, concretizado em 1973, ela inicia o casal à cozinha continental e prepara requintados pratos franceses. Mas o comissário Oxford vê e degusta essas comida com nojo, e é assim que aparece a mesa posta por Hitchcock: cabeças de peixes, carcaças esquisitas de aves e molhos de cor suspeita. Por detrás dos nomes pomposos em francês, os pratos servidos ao comissário Oxford parecem uma porcaria. Metaforicamente, Hitchcock vê a adesão da Inglaterra à UE como uma degradação do bem-estar e do modo de vida inglês.

Pouco mais de quarenta anos depois da filmagem de Frenesi, nesta terça-feira (2), o primeiro-ministro David Cameron se reuniu com o presidente do Conselho Europeu para as negociações da última chance, antes do referendo britânico sobre a saída do Reino Unido da União Europeia. O comunicado oficial anuncia um pré-acordo que toma em conta a situação específica do Reino Unido e faz certas concessões a David Cameron. Em meados deste mês, os 27 parceiros do Reino Unido na União Europeia vão avalizar ou restringir este pré-acordo. No mês de junho provavelmente terá lugar o referendo britânico sobre a saída da UE.

Qual será o resultado? As sondagens não exprimem até agora uma tendência nítida. Talvez porque os ingleses achem muito difícil romper de vez com a UE. O Reino Unido mudou muito de 1972 para cá. O país ganha muito dinheiro no comércio com a UE, mesmo permanecendo fora da zona do euro. Londres está cheia de residentes franceses, italianos, poloneses. Britânicos de todas as idades moram ou viajam frequentemente para a França e outros países europeus. Nos fins de semana, o trem-bala Eurostar leva e traz quem trabalha de um lado e do outro do Canal da Mancha. 

Covent Garden acabou em 1974, um ano depois da entrada do Reino Unido na União Europeia. O local foi preservado e está agora cheio de restaurantes, padarias e lojas continentais.

Em Frenesi, o comissário Oxford diz para um delegado: "Minha mulher está fazendo um curso de gastronomia continental. Aparentemente eles nunca ouviram falar que os ingleses, para se alimentar bem, comem três cafés da manhã por dia, e três cafés da manhã ingleses!"

A frequência dos restaurantes franceses e italianos de Covent Garden mostra que os ingleses, ou pelo menos os londrinos, mudaram muito de paladar e de gostos desde 1973.

Talvez isso pese bastante no referendo de junho. 

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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