O papa, o patriarca russo e a diplomacia cubana

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Alessandro Bianchi/Reuters

O encontro entre o papa Francisco e o patriarca ortodoxo russo Kirill, que terá lugar em Havana nesta sexta-feira (12), tem um duplo relevo. De saída, há o lado simbólico do evento que reúne, pela primeira vez desde a ruptura ocorrida há quase mil anos, o chefe da Igreja Ortodoxa russa e o sucessor de São Pedro e mais alto representante da "Primeira Roma".

O patriarca Kirill é o chefe da "Terceira Roma", nome atribuído à Igreja Ortodoxa russa depois de 1453, quando Constantinopla (atual Istambul) foi tomada pelos otomanos. Istambul e Antioquia (na atual Síria) continuam sendo sedes da Igreja Ortodoxa oriental, a "Segunda Roma".

As comunidades cristãs ortodoxas do Oriente Médio, agora brutalmente perseguidas pelo Estado Islâmico, filiam-se a esses patriarcados. O tema central da conversa entre Kirill e Francisco será a proteção das comunidades ortodoxas da Síria e do Iraque. Numa síntese bem inspirada, o AsiaNews, website do Vaticano dirigido aos cristãos do Oriente, elaborou uma frase que dá a dimensão do encontro de Havana: "A Terceira Roma reconciliou-se com a Primeira para salvar a Segunda, as Igrejas perseguidas do Oriente".

Isto posto, o patriarca Kirill, aliado de Putin, tem pretensões de posicionar-se como a referência central de todo o cristianismo ortodoxo. Além de Cuba, ele visitará oficialmente o Paraguai e o Brasil, encontrando a presidente Dilma e em seguida a comunidade ortodoxa de São Paulo.

Outro ponto importante do encontro de Havana é a confirmação da continuidade da aliança diplomática entre Raul Castro e o papa Francisco. Após sua ajuda nas discretas negociações que restabeleceram as relações diplomáticas entre Cuba e os Estados Unidos, o Vaticano teve o apoio do governo cubano para encontrar Kirill em Havana.

O conceituado jornal católico francês "La Croix" descreve as longas discussões preparatórias para o encontro entre as duas autoridades religiosas. O ponto de partida foi a visita de Gorbatchev ao papa João Paulo 2º, no Vaticano, em dezembro de 1989, para anunciar a liberação da Igreja greco-católica ucraniana, com seguidores mundo afora, inclusive no Sul do Brasil, mas até então proibida na URSS.

Os entendimentos travaram em seguida, foram retomados em 2013 por emissários católicos e ortodoxos para concluírem-se nesta sexta-feira, num encontro reservado entre Kirill e Francisco no aeroporto de Havana.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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