O Brexit é o fim da União Europeia ou o fim do Reino Unido?

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Kirsty Wigglesworth/AP

    Theresa May, a nova premiê britânica

    Theresa May, a nova premiê britânica

A posse da primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, seguiu todos os trâmites institucionais e políticos britânicos. Na sequência da demissão de David Cameron, os parlamentares do partido conservador, majoritários em Westminster, escolheram a nova líder que se tornou desde logo a primeira-ministra habilitada a formar o novo governo.

Os conservadores têm maioria assegurada até 2020, final do mandato dos parlamentares eleitos em 2015. Antes disso, só haverá novas eleições se o próprio partido decidir. Tudo está nos conformes, dentro da tradição democrática do mais perene governo parlamentar do mundo.

Porém, no contexto do debate sobre a crise da democracia representativa, essa revirada governamental suscitou questionamentos. Depois do terremoto provocado pela vitória do Brexit no referendo popular, no qual David Cameron foi o principal derrotado, faz sentido submeter a escolha do novo governo unicamente aos parlamentares conservadores? Não caberia convocar eleições gerais para clarificar o ambiente político nebuloso em que se encontra o país?

Outro problema do pós-Brexit, bem mais complexo, se refere à própria viabilidade das atuais instituições do Reino Unido.

Na semana passada, foi anunciado que o Constitution Reform Group, composto por uma comissão parlamentar suprapartidária, irá propor a transformação do Reino Unido numa verdadeira Federação. Os poderes do governo central londrino serão reduzidos em benefício da maior autonomia dos parlamentos da Inglaterra, do País de Gales, da Escócia e da assembleia de governo da Irlanda do Norte.

O número de parlamentares da House of Commons diminuiria de 650 para 146 e a House of Lords teria outro formato. A ideia geral da proposta é gerar uma coesão voluntária e não impositiva entre as quatro nações que formam o Reino Unido. Numa declaração ao Guardian, Lord Salisbury, coordenador do Constitution Reform Group, declarou: "Chegou a hora de fazer uma mudança radical. Este país precisa de um novo Ato de União. Depois do voto do Brexit nós vivemos num mundo diferente".

Se for adotado pelo Parlamento britânico, depois de uma sequência de consultas parlamentares nas quatro nações, o novo Ato de União será submetido a um referendo no Reino Unido num prazo de catorze meses.

No meio tempo, o Brexit continua impactando o cotidiano da política e da economia britânica. Um dos últimos indicadores econômicos publicados tem um significado importante.

O setor imobiliário londrino tem tido uma alta constante nos últimos anos. Notadamente em razão do dinamismo das atividades financeiras, responsáveis pela existência de 360 mil empregos em Londres em 2016, a cifra mais alta registrada desde de 2007.

Ora, um relatório de um organismo especializado sobre as intenções de compra de imóveis em Londres indica uma queda forte, acentuada pelo Brexit. Os índices agora são os mais baixos desde meados de 2008, no auge da crise financeira que iniciava a Grande Recessão.

Os prognósticos são otimistas no longo prazo. Mas as dúvidas persistem. O índice geral das pesquisas sobre o Brexit publicado pelo Financial Times indicou, durante semanas a fio, a derrota do Brexit no referendo do dia 23 de junho. Na manhã do dia da votação, o índice ainda indicava uma vitória dos pró-europeus com uma margem de três pontos. O gráfico ainda está online para mostrar como o longo prazo é cheio de surpresas.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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