Como o Facebook e o Twitter atuam no debate eleitoral e democrático?

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • AFP

O acirramento das campanhas eleitorais nas mídias sociais levou dois grandes jornais ocidentais, o Le Monde e o Washington Post, a analisar o papel de Facebook e Twitter no debate democrático. Na reportagem mais longa e mais documentada, publicada pelo diário parisiense, o título da matéria é eloquente : "Facebook, uma ameaça para a democracia ?".

O texto começa citando a surpresa de uma jornalista de Londres que, até a véspera do referendo de 23 de junho, não viu sinal da derrota dos pró-europeus no fluxo do seu Facebook e acordou com o resultado favorável ao Brexit. Na realidade, constatam os autores da matéria do Le Monde, a sequência de filtros incorporados ao Facebook forma um circuito fechado no qual só opinam os que foram cooptados como 'amigos' habilitados a 'compartilhar' e 'curtir' os mesmos gostos.

Da mesma forma, são os contatos e a atividade do FB  que selecionam o seu feed de notícias. Um estudo publicado em 2015, demonstrou que maioria dos usuários ignora que as notícias são filtradas por um algoritmo e que os parâmetros da filtragem podem ser modificados para corrigir distorções.  Daí deriva um desconhecimento das opiniões discordantes e uma incapacidade de argumentação frente a adversários políticos ou ideológicos. 

No final das contas, como sublinha a reportagem do Le Monde, FB aparece, antes de tudo, como "uma usina de publicidade dirigida" que não dá totalmente conta da complexidade das informações de seus usuários. 

A reportagem do Washington Post se dedica a demonstrar o papel nefasto de Facebook e de Twitter na propagação de notícias falsas no contexto da virulenta campanha presidencial americana: "o FB provou ser um instrumento muito eficaz de compartilhamento de artigos aparentemente sérios, mas incorretos, da Web".

Note-se, aliás, que a procuradoria pública de Munique abriu uma investigação para apurar a possível violação da legislação contra o racismo praticada por Mark Zuckerberg e outros executivos de Facebook. Particularmente severa na Alemanha, a legislação antirracista visa dezenas de posts de incitação ao ódio e racistas que não foram deletados por FB no ano passado.

Para Philip Bump, o autor da matéria do Washington Post, o Twitter é ainda pior que FB neste quesito. Segundo ele, nas presidenciais americanas de 2016, a inabilidade do Twitter para eliminar trolls racistas e antissemitas tem sido "um problema recorrente".

O ponto de vista exposto por Lord Turner, ex-diretor de importantes instituições e internacionais é, num certo sentido, ainda mais radical. Para ele, a tecnologia informática que permitiu o surgimento de empresas como Facebook, Twitter, Uber e Airbnb ameaça as próprias bases do capitalismo democrático. "O FB tem agora um valor de mercado de cerca de 370 bilhões de dólares. Mas emprega somente 14 mil pessoas e teve que investir (relativamente) pouco para chegar neste ponto."

Para Lorde Turner, esse processo está minando a "promessa fundamental do capitalismo" de que o avanço na tecnologia e, no sentido mais amplo, na economia, traz diferentes tipos de benefícios para todos. 

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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