Discurso de Trump deixa a União Europeia perplexa e coloca China em alerta

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Odd Andersen e Joshua Lott/ AFP

Cada dia, um tuíte ou uma declaração de Trump joga mais uma pá de cal na ordem internacional prevalecente desde a Segunda Guerra.

Ontem (16), os jornais europeus estamparam a perplexidade dos dirigentes do Velho Continente, sobretudo os franceses e alemães, a respeito da entrevista do próximo presidente americano a dois jornais conservadores, o alemão "Bild" e o inglês "The Times". Há equívocos em vários tópicos da entrevista.

Lideranças alemãs, e o próprio vice-primeiro ministro e ministro da Economia, Sigmar Gabriel, responderam a Trump, que criticou as exportações de carros alemães para o mercado americano. Como eles observaram, há muitas fábricas de automóvel alemãs nos Estados Unidos. Assim, o número de carros BMW, citados por Trump, exportados da Alemanha para os Estados Unidos é menor do que o número de carros da marca fabricados em solo americano e exportado para outros países.

As ameaças que Trump deixou pairar sobre a aliança militar americana com a Europa Ocidental, ao dizer que a Otan era "obsoleta", também preocuparam os europeus, que temem o aumento da influência russa no continente, na sequência de uma aproximação entre o novo presidente e Vladimir Putin.

O francês Pierre Moscovici, comissário (ministro) europeu de assuntos econômicos apontou outro problema nas declarações de Trump. O Reino Unido ainda faz parte da União Europeia e as negociações para sua saída efetiva, se começarem no próximo mês de março, durarão no mínimo dois anos. Portanto, não é possível fazer um acordo comercial anglo-americano "rapidamente", como propôs Trump. Mas o presidente americano foi mais longe ao defender a saída de outros países membros da UE.

Por trás dos mal-entendidos e dos aparentes disparates de Trump, desenha-se uma realidade. A nova presidência americana propugna o bilateralismo, o protecionismo econômico e o desmantelamento da União Europeia. Todavia, as reações europeias contra as declarações de Trump vêm de países democráticos, aliados tradicionais dos Estados Unidos, que não tomarão nenhuma medida precipitada, sabendo que os presidentes passam e as realidades geopolíticas do Atlântico Norte ficam.

Toda outra é a situação no enfrentamento que se desenha entre Washington e Pequim. Trump já anunciou que pretende jogar duro com a China, tanto no plano econômico como no plano militar.

A primeira resposta chinesa, no campo econômico, misturou habilidade e diplomacia. Marcando a primeira presença de um chefe de estado da China em Davos, Xi Jinping fez hoje um discurso em que se coloca como o campeão da globalização, criticando o protecionismo: "ninguém sairá vencedor de uma guerra comercial". Se aproximando mais ainda dos países preocupados com o protecionismo e com outras viradas da política americana anunciadas por Trump, Jinping defendeu o Acordo de Paris sobre o clima assinado em 2015 por 195 países, agora denunciado pelo novo presidente dos Estados Unidos.

O problema mais sério reside num aumento da tensão militar entre Pequim e Washington. O terreno do conflito já está delimitado: o Mar da China Oriental. Oito ilhas situadas numa área de 81 mil milhas quadradas, com um potencial de 200 milhões de barris de petróleo, têm sua posse disputada pelo Japão e pela China. Também em conflito com a Rússia, mais norte, em torno da soberania sobre as Ilhas Curilas, e com contenciosos análogos nos mares do Vietnã e das Filipinas, a China está se dotando, pela primeira em séculos, de uma poderosa marinha de guerra.

Neste contexto, Pequim também transforma recifes e ilhotas em bases navais, avançando seus peões nos mares da região. Rex W. Tillerson, o futuro secretário de Estado americano, já declarou que mandará um "sinal claro" para que a China pare de construir essas bases navais.

Para contextualizar a gravidade dessas declarações é preciso relembrar a história marítima dos Estados Unidos. Ao contrário do Atlântico, e em especial do Atlântico Norte, onde esbarravam na marinha britânica e nas outras marinhas de guerra europeias, os americanos avançaram no Pacífico desde o século 19. Primeiro, ocupando as Filipinas, depois de expulsarem os espanhóis da região (1898). Em seguida, encarando o desafio do Japão que abriu uma das frentes mais sangrentas da Segunda Guerra.

Historiador, conservador radical, conselheiro e confidente de Trump,  Newt Gingrich se reportava a este quadro histórico ao se referir às manobras chinesas no Mar da China Oriental numa entrevista ao Spiegel: "nós tentaremos prevenir aos chineses que enquanto nós estivermos vivos, eles nunca se tornarão uma potência naval". Muita gente em Pequim, mas também noutras capitais mundiais, deve ter achado esta advertência arrogante e, mais ainda, perigosa. 

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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