Trump e suas mentiras no período mais inquietante do século

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Carlos Barria/Reuters

    O presidente dos EUA, Donald Trump

    O presidente dos EUA, Donald Trump

Dan Barry, reporter e colunista do New York Times, recapitulou os substantivos usados pelo jornal e pela mídia americana para caracterizar as inexatidões recentemente ditas ou tuítadas por Trump.

As palavras "inverdades", "falsificações", "equívocos" ou "erros" foram usadas pelos jornalistas em várias ocasiões. Mas seu acúmulo mudou o patamar linguístico e conceitual.

Mais influente jornal do mundo, o NYT manchetou no dia 23, num dos títulos da primeira página: "Encontrando-se com parlamentares, Trump repete uma mentira sobre as eleições".

O texto recebeu mais de 3.000 comentários dos leitores. Um dos comentários mais recentes dizia : "Obrigado ao NYT por usar a palavra "mentira" no título". Na quinta feira (26), outro colunista do jornal volta ao assunto e pega pesado: "Trump é um rematado mentiroso. Ele mente frequentemente e sem problemas. Mente sobre as coisas sérias e sobre as triviais".

Jornais ingleses e europeus já haviam comentado as mentiras de Trump. Mas a investida do NYT, antes mesmo do novo presidente completar uma semana na Casa Branca, é inédita na história americana.

Em setembro passado, a Economist publicou, a respeito da campanha do Brexit e de Trump, um ensaio sobre a maneira descomplexada de mentir. Retomando a expressão "pós-verdade", popularizada pouco antes por Katherine Viner, chefe de redação do Guardian, e incluída em seguida no Oxford Dictionnary de 2016, a Economist concluia com uma frase que aparece agora como um mau preságio: "Se Sr. Trump perder em novembro, a pós-verdade parecerá (uma prática) menos ameaçadora". 

Entronizada na Casa Branca, a pós-verdade incorpora os preconceitos pregando, e ampliando indefinidamente nas redes sociais, a mentira que parece ser verdade. Porém, o presidente Trump foi mais longe do que simplesmente assacar mentiras, enunciando vários absurdos, entre os quais se destaca sua repugnante defesa da tortura pelos órgãos de segurança americanos.

Qual o objetivo dessa revirada toda na política internacional e no exercício da presidência da maior democracia e mais antigo país laico e constitucional do mundo? Deixando de lado as análises psicologizantes que catalogam Trump como um mentiroso compulsivo ou como um ator que ainda tem na cabeça o seu reality-show (The Apprentice e Celebrity Apprentice 2004-2015), duas explicações se alinham.

A primeira focaliza a ridícula acusação de Trump, refutada até por líderes republicanos, de que houve uma "fraude maciça" nas eleições presidenciais, com uma maioria de eleitores ilegais votando para dar a maioria dos votos populares a Hillary Clinton.

Conforme o jurista Lawrence Douglas, do Amherst College (Massachusetts), a insistência de Trump sobre a fraude eleitoral pode levar os eleitores a desconsiderar o direito de voto e as eleições.

No limite, os ataques de Trump podem também desqualificar as legislativas de 2018, cujo resultado é geralmente desfavorável ao presidente em exercício. A outra interpretação defende que a mentirada toda de Trump visa a lançar uma cortina de fumaça para adiar indefinidamente a publicação de suas declarações de imposto de renda.

Um presidente que mantém negócios pelo mundo afora e tem inextricáveis interesses em dezenas de empresas, seria assim o primeiro ocupante da Casa Branca dos últimos 40 anos a esconder suas declarações de imposto.

Por que, então, o partido republicano, majoritário no Congresso, não enquadra Trump? Robert Reich, ex-ministro do Trabalho da primeira presidência Clinton, deu uma explicação plausível para esta questão.

Reproduzindo uma conversa com um de seus amigos, um anônimo parlamentar republicano, Reich sublinha que os republicanos podem servir-se de Trump e depois largá-lo.

Deixam-no com o ônus de desmontar a legislação sobre a regulação bancária e financeira, cortar impostos e programas sociais. Na sequência, enrascado em suas mentiras, Trump sofre um impeachment e o vice-presidente, Mike Pence, um tarimbado político e administrador público, assume a presidência.

Qualquer das hipóteses aventadas remetem a um ponto comum: a presidência de Trump inaugura o período mais inquietante deste século.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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