As eleições na Europa: o caso alemão

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Tobias Schwarz/AFP

    O candidato social-democrata à Chancelaria alemã, Martin Schultz, reage ao ser eleito líder do partido SPD, em Berlim

    O candidato social-democrata à Chancelaria alemã, Martin Schultz, reage ao ser eleito líder do partido SPD, em Berlim

O desenlace do Brexit, as recentes eleições na Holanda e as próximas eleições na França (abril-maio) têm deixado a pré-campanha eleitoral alemã no segundo plano da atualidade europeia. No entanto, nesta terça-feira (21), houve uma novidade importante na Alemanha. Martin Schulz, candidato do Partido Social Democrata (SPD) apareceu liderando, junto com seu partido, as sondagens de intenções de voto, na frente da atual chefe de governo, Angela Merkel, da União Democrata Cristã (CDU). 

As eleições gerais alemãs terão lugar no final de setembro (não há ainda data certa). Martin Schulz tem um perfil político bastante singular. Livreiro numa pequena cidade alemã perto da fronteira com a Bélgica e a Holanda, ele tem parentes nos três países e fala também francês, inglês, holandês e italiano.

Eleito deputado europeu em 1994, Schulz foi seguidamente reeleito e presidiu o Parlamento Europeu entre 2012 e fevereiro de 2017. Assim, Schulz se destaca como o primeiro grande líder alemão, e europeu, cuja carreira política decorreu quase toda em Bruxelas, no Parlamento Europeu. Desse modo, Schulz não participou do atual governo dirigido por Angela Merkel, no qual o SPD tem uma participação minoritária.

Tal carreira o faz parecer como um político relativamente novo no cenário eleitoral alemão. Trata-se de um trunfo importante frente à Angela Merkel, a qual, apesar de sua grande popularidade, completou em setembro do ano passado seu 11º ano na chefia do governo. 

Pertencendo à ala esquerda do SPD, Schulz é decididamente pró-europeu. Na época em que presidia o Parlamento Europeu, ele terçou armas com o então primeiro ministro britânico David Cameron nas vésperas do Brexit. Na sua opinião, a União Europeia não deve dar nenhuma facilidade aos britânicos no processo de desligamento do Brexit, cuja etapa inicial será oficialmente lançada pela primeira-ministra britânica no dia próximo dia 29.

Comentando a campanha eleitoral alemã, o jornal britânico "The Telegraph" indicou que a primeira-ministra Theresa May está torcendo pela vitória de Merkel para não ter de lidar com o pró-europeu linha-dura Martin Schulz nas difíceis negociações do Brexit. Recentemente, Schulz criticou duramente o presidente Trump, acusado de se apartar da tradição de Iluminismo, democracia e liberdade que tem caracterizado a história dos Estados Unidos.

Na França, a evolução política alemã é seguida com muita atenção, dado os vínculos estreitos que unem Paris e Berlim. A eventual vitória do candidato de centrista pró-europeu Emmanuel Macron, que nas sondagens sobre o segundo turno das presidenciais aparece bem na frente da candidata anti-europeia Marine Le Pen, certamente reforçará a UE. Sigmar Gabriel, ex-presidente do SPD e vice-chefe do governo alemão, ao lançar a candidatura de Schulz se entusiasmou e exclamou: "Emmanuel Macron presidente [da França] e Martin Schulz chefe do governo [alemão]!".

Caso isso aconteça, a União Europeia –, basicamente criada e sustentada pela França e pela Alemanha -, poderá retomar vias bem mais promissoras, deixando para trás seu presente sombrio.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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