Reino Unido e UE radicalizam suas posições na negociação do Brexit

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Hannah McKay/Reuters

    26.abr.2017 - A premiê britânica, Theresa May, recebe o chefe da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, em Londres

    26.abr.2017 - A premiê britânica, Theresa May, recebe o chefe da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, em Londres

Dois incidentes da semana passada ilustram, mais uma vez, a radicalização das posições do Reino Unido e da União Europeia (UE) nas negociações sobre o Brexit. Assim, o relatório intitulado "Dimensão social da Europa", lançado pela Comissão Europeia no último dia 26, apagou o Reino Unido de uma parte dos mapas da UE. Sucede que a dita comissão, composta por um representante de cada país membro, inclui também o representante do Reino Unido, visto que o país continua sendo membro da UE até a conclusão do Brexit. 

No site do tabloide londrino "Daily Express", historicamente anti-UE e ardente defensor do Brexit, os leitores se regozijaram com a notícia, que retrata graficamente a ruptura entre Londres e Bruxelas (sede da EU). Tirando as conclusões da nova cartografia europeia, um internauta, dirigindo-se aos líderes britânicos do movimento pró-UE, escreveu no site do "Daily Express": " (Tony) Blair, (David) Cameron, (Richard) Branson, tomem nota: os mapas mostram que até a UE aceitou o Brexit".

Trata-se, efetivamente, de uma virada. Pela primeira vez, um documento oficial da UE considera o Brexit como um fato consumado, antes mesmo do início das negociações sobre a saída do Reino Unido.

No mesmo dia 26 ocorreu outro incidente marcante que tem a ver, justamente, com a agenda das negociações. Para dar um caráter oficial ao primeiro contato formal entre as duas partes, a primeira-ministra Theresa May jantou com Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, e titular do cargo mais importante da UE. Theresa May foi a anfitriã de Juncker e seus assessores na sua residência oficial de Londres, nº10 Downing Street.

Na altura, ela já havia anunciado a antecipação das eleições gerais britânicas, marcadas para 2020, para o próximo dia 8 de junho. Confiante da unanimidade das pesquisas, Theresa May dá como certa sua vitória. Na circunstância, o sufrágio popular deve lhe trazer dois trunfos importantes para as discussões com Bruxelas. Em primeiro lugar, seu posto de chefe governo será claramente endossado pelos eleitores (em julho de 2016 Theresa May se tornou primeira-ministra por decisão dos parlamentares conservadores, na sequência do referendo do Brexit e da demissão de David Cameron). Em segundo lugar, o Brexit também receberá uma nova caução eleitoral. 

Neste contexto, Jean-Claude Juncker chegou a hesitar antes de aceitar um convite para um encontro que poderia ser atrapalhado pela campanha eleitoral britânica. Mas mudou de ideia, foi até Londres e trocou beijinhos com Theresa May para os fotógrafos dos jornais na frente da residência governamental. Na saída do jantar, um comunicado de Downing Street declarou que o encontro dos dois líderes havia sido "construtivo".

Mas apareceram relatos mais críticos sobre o jantar e logo em seguida influente diário alemão "Frankfurter Allgemeine Zeitung" publicou um relato detalhado do encontro. O vazamento das conversas entre Theresa May e Juncker num jornal alemão foi imediatamente desautorizado e classificado como "fofoca de Bruxelas" por Theresa May. No entanto, um relato similar, publicado pelo "Sunday Times" e a confirmação de "múltiplas fontes", corroboram a conclusão de que o resultado do jantar foi desastroso, segundo a expressão do jornal londrino pró-europeu "The Independent".

Essencialmente, Juncker e seus auxiliares saíram com a impressão que Theresa May estava "noutra galáxia", subestimando a gravidade e a complexidade do Brexit. No final do jantar, Juncker teria dito que saía "dez vezes mais cético" sobre as chances de um acordo bem-sucedido entre o Reino Unido e a União Europeia.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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