As Forças Armadas Europeias, uma mudança histórica

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Marios Lolos/Xinhua

Na semana passada, a UE (União Europeia) cumpriu mais uma etapa importante na sua construção e na afirmação de sua soberania plena. Formada por ministros (comissários) dos 28 países membros, a Comissão Europeia anunciou a criação de um fundo de Defesa para a constituição de um Exército comum europeu.

A partir de 2020, um orçamento anual de 500 milhões de euros será destinado à pesquisa militar enquanto 5,5 bilhões de euros anuais financiarão a fabricação e compra de armamentos destinados às FFAA da União Europeia. No pós-guerra, os exércitos nacionais europeus foram enquadrados por uma das grandes potências, os Estados Unidos na Europa Ocidental e a ex-URSS na Europa Oriental.

A criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (1951), embrião da UE, já comportava a ideia de um controle supranacional das Forças Armadas do continente. De fato, a gestão comum da indústria siderúrgica de seis países europeus, sobretudo da França e da então Alemanha Ocidental, travava um armamentismo unilateral francês ou alemão, afastando o perigo de uma nova guerra entre os dois países.

Contudo, as guerras coloniais francesas, a guerra Fria, a onipresença da OTAN e o peso das tropas americanas aquarteladas na Europa limitavam a margem de manobra dos oeste-europeus.

Com o fim da URSS e a entrada dos países leste-europeus na UE voltou-se a falar da organização de um exército com tropas dos países do continente sob um comando unificado europeu. Saudando a iniciativa, um editorial do jornal parisiense Le Monde, lista o "alinhamento de planetas" que favorece o projeto de autonomia militar europeia.

Em particular, a necessidade da uma prevenção organizada contra os atentados terroristas nas grandes cidades europeias, a complexidade da proteção das fronteiras da UE, o expansionismo russo, a emergência da guerra cibernética, a recusa de Trump em explicitar o engajamento militar americano junto aos aliados europeus e, enfim, o Brexit e a saída da UE do Reino Unido, partidário intransigente da aliança norte-atlântica entre europeus e americanos, estimulam a criação do novo Exército.

Considerações econômicas também entram em linha de conta. A UE tem 178 tipos de armas diferentes, enquanto os EUA têm apenas 30, 20 modelos de caças, contra 6 nos EUA, e assim por diante. Uma organização militar comum proporcionará economias e, certamente, mais encomendas para a indústria bélica e informática europeia.

Resta que o futuro Exército europeu enfrentará desafios geopolíticos. Assim, a França entretém em algumas de suas ex-colônias africanas um controle militar estreito que muitos definem como um neocolonialismo. As tropas europeias darão cobertura às intervenções militares francesas na África? Até agora, a Alemanha tem evitado seguir este caminho.

Aliás, o rearmamento alemão suscita, nos Estados Unidos e na Europa, desde a Segunda Guerra, grande desconfiança. Antes mesmo de ser anunciado em Bruxelas o financiamento do novo Exército europeu, a revista americana Foreign Policy publicou uma matéria com um título significativo: "A Alemanha constrói em silêncio um Exército europeu sob seu comando". 

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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