Brexit começa mal para os britânicos

Luiz Felipe de Alencastro

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Luiz Felipe de Alencastro
  • Getty Images/iStockphoto

Nesta segunda-feira (19) começaram para valer, nos escritórios da Comissão Europeia, em Bruxelas, as negociações sobre o Brexit. A partir de agora, entra em vigor a agenda das etapas para a ruptura definitiva entre o Reino Unido e a União Europeia (UE). Em outubro de 2018, terminam os acertos entre as duas partes. O acordo deverá então ser endossado por todos os parlamentos envolvidos no processo, o europeu, o britânico e o parlamento de cada um dos 27 países da UE.

Em 29 de março de 2019, exatamente dois anos depois de Theresa May ter notificado a Comissão Europeia de sua intenção de sair da UE, o processo estará concluído. Na sequência, podem ocorrer três hipóteses. As duas primeiras são relativamente simples. Uma maioria absoluta do Conselho de Ministros da UE confirma o acordo, ou decide, por unanimidade, a prolongação das negociações. A terceira hipótese configura uma incógnita na medida em que não está prevista nos textos da UE: nenhum acordo é concluído pelos negociadores.

Mesmo que haja um entendimento em boa e devida forma entre as duas partes em março de 2019, pode ainda ocorrer que um dos parlamentos citados acima vete o acordo, travando todo o processo. Uma síntese bem completa sobre os desdobramentos e a grande complexidade do Brexit foi publicada hoje no site Zero Hedge.

Desde já, está claro que o Reino Unido inicia as negociações enfraquecido pelo resultado relativamente desfavorável à Theresa May nas recentes eleições parlamentares. Dividida entre correntes que defendem a uma retirada parcial da UE ("soft Brexit") e partidários de uma ruptura radical, o "hard Brexit", a coligação parlamentar que apoia Theresa May pode escolher um novo primeiro-ministro ou se desagregar, levando a novas eleições no Reino Unido.

O contexto atual do Parlamento foi resumido no jornal "The Washington Post" por um especialista inglês de assuntos europeus: "não há uma maioria para o 'hard Brexit', uma maioria para o 'soft Brexit', e certamente não há maioria para o 'remain' (continuar na UE); o quadro é muito confuso".

A opinião pública está apreensiva com as incertezas que rondam todo o processo. Assim, uma sondagem divulgada hoje em Londres, mostra que 62% dos britânicos pensa que seu governo não está suficientemente preparado para as discussões sobre o Brexit.

Por enquanto, a relação de forças é favorável à UE. A vitória decisiva do partido de Macron no último domingo (18), consolidou os pró-europeus em Paris e em Bruxelas.

No final de setembro, a reeleição quase certa de Angela Merkel na chefia do governo alemão lhe oferece um novo mandato engajado na parceria com a França para o aprofundamento da construção europeia.

Ironia do destino, Theresa May esperava que as eleições na França levassem à presidência e ao parlamento do país um candidato menos pró-europeu que François Hollande e os socialistas. No meio tempo, os eleitores britânicos enfraqueceram sua liderança e os franceses elegeram, pelos próximos cinco anos, o presidente e a maioria parlamentar mais pró-europeia de sua história.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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