Inclusão de Valongo como patrimônio lembra que Brasil não é só país de imigrantes, mas de escravos

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Bruno Bartholini/Pública

    Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, após as obras

    Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, após as obras

A inclusão no Patrimônio da Humanidade do Cais do Valongo, porto carioca de desembarque de africanos escravizados, tem um conteúdo inédito no continente americano. Anunciada na semana passada, a iniciativa completa a série de lugares brasileiros inscritos no Patrimônio da Unesco. Com o Valongo, são agora 14 sítios culturais (entre eles, Olinda e Ouro Preto), somados aos sete sítios naturais (como o Parque de Iguaçu e o Pantanal) brasileiros que compõem a prestigiosa lista.

Decerto, existem no Brasil (o Pelourinho, na Bahia) e em outros países americanos (Cartagena, na Colômbia) áreas ligadas a portos de tráfico de africanos que também foram incluídas no Patrimônio da Humanidade. Contudo, o Valongo é o primeiro sítio arqueológico da América explicitamente inscrito por causa de seu destaque como porto negreiro.

"Trata-se do traço físico mais importante associado à chegada de escravos africanos no continente americano", diz o comunicado da Unesco que justifica a escolha do sítio do Valongo. Mais ainda, junto com outras enseadas cariocas, o Valongo configura no Rio de Janeiro a maior zona portuária americana de desembarque de africanos durante o período do tráfico transatlântico (1501-1867).

Só há um outro porto diretamente ligado ao tráfico de escravos e rememorado como tal na lista do Patrimônio da Humanidade. Trata-se de um porto africano, "símbolo da exploração humana", segundo a Unesco, a ilha de Gorée, no Senegal.

Mas a lista dos sítios arqueológicos deste ano, traz ainda um outro lugar conectado à tragédia luso-afro-brasileira que caracterizou o tráfico negreiro, Mbanza Congo. Situada no norte de Angola, Mbanza Congo foi a capital do antigo reino do Congo, um dos grandes estados pré-coloniais subsaarianos que incluía partes de Angola, Gabão, Republica do Congo e Republica Democrática do Congo.

Reprodução
Gravura do pintor francês Jean Baptiste Debret (1768-1848) que retrata um mercado de escravos localizado na rua Valongo, no Rio de Janeiro

Reconhecido pelos papas e pelos reis de Portugal como um Estado independente, o reino do Congo e Mbanza Congo declinaram na sequência da batalha de Ambuíla (1665), vencida pelas tropas luso-afro-brasileiras enviadas pelo governador de Angola, o paraibano André Vidal de Negreiros. Geralmente conhecido como um dos comandantes da guerra contra os holandeses em Pernambuco, Vidal de Negreiros e seus homens também foram eficazes preadores de escravos em Angola.

Valongo e Mbanza Congo são marcos do drama transatlântico que deixou traços indeléveis na maioria dos países americanos e africanos, e mais particularmente em Angola e no Brasil. Diplomatas e empresários brasileiros quando estão no exterior costumam apresentar o Brasil como um país construído por imigrantes. Mas afirmação de que "o Brasil é obra de imigrantes", feita em setembro passado pelo presidente Temer no seu discurso na ONU, é equivocada.

O Valongo está aí para lembrar que o número de africanos escravizados chegados entre 1550 e 1850 (4,9 milhões) é 6,4 vezes maior do que o número de portugueses (750 mil), entrados no mesmo período, e quase igual ao número de imigrantes de vários continentes chegados entre 1850 e 1950 (5 milhões).

Na era inaugurada pela incorporação do Cais do Valongo ao Patrimônio da Humanidade, o que deve ser dito é o seguinte, "nós somos um país formado por milhões de deportados africanos, índios e outros milhões de imigrantes geralmente pobres, que criaram uma nação, um Estado independente".

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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