Macron terá força para reposicionar a França no cenário internacional?

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Presidence de le République Francaise/AFP

Depois de vencer as presidenciais e de impulsionar seu partido, La République en Marche (LREM), na campanha legislativa que resultou na obtenção da maioria absoluta de deputados na Assembleia francesa, Emmanuel Macron reforçará sua maioria parlamentar no Senado. Eleições senatoriais parciais terão lugar no final de setembro próximo. Metade do Senado será renovado, submetendo ao eleitorado 170 mandatos. Segundo as sondagens, o LREM deverá obter de 74 a 79 novos senadores que se somarão a outros 10 que aderiram ao partido de Macron. O LREM terá assim cerca de 90 senadores, formando o segundo bloco partidário no Senado, depois dos gaullistas.

Ao contrário das eleições de deputados para a Assembleia, as eleições senatoriais são indiretas e o Senado não conta muito na França. Resta que o LREM, que saiu do nada, prossegue sua marcha para se tornar uma força política dominante, no meio dos destroços das duas grandes agremiações partidárias, os socialistas e os gaullistas. É verdade que a popularidade de Macron caiu bastante nas últimas semanas. Mas sua estratégia é de longo prazo, contando com um mandato de cinco anos, com ampla maioria na Assembleia e o projeto de se reeleger em 2022. Em setembro, depois das férias de verão, os primeiros embates no Parlamento e nas ruas --haverá certamente manifestações contra a reforma da legislação trabalhista-- darão a medida da solidez do projeto político presidencial.

No meio tempo, Macron também tem uma agenda europeia e internacional que merece reflexão. No plano internacional, o presidente francês recebeu, em diferentes ocasiões, o presidente Vladimir Putin, o presidente Donald Trump, Mahmud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Em cada um desses encontros, Macron marcou posição, afirmando os interesses de seu país e da Europa. Há alguns dias, ele tentou apaziguar a guerra civil na Líbia, organizando um encontro em Paris entre Fayez al-Sarraj, o primeiro-ministro líbio apoiado pela ONU e Khalifa Haftar, o comandante que controla a maior parte do leste da Líbia.

A conjuntura europeia também favorece a diplomacia francesa. Com o Brexit e a política isolacionista de Donald Trump, a França avançou seus peões na Europa. Diplomatas e funcionários franceses batalham ostensivamente para atrair firmas e empresários transnacionais sediados em Londres cujos interesses serão prejudicados pelo Brexit. Macron não hesitou em convidar cientistas e empresários decepcionados com a saída dos Estados Unidos do Acordo sobre o Clima a se mudarem para a França. Angela Merkel também tem uma grande liderança na Europa. Contudo, na sequência da Segunda guerra, as relações históricas complicadas da Alemanha com alguns países, como a Polônia e a Grécia, impedem que a diplomacia alemã aja com a mesma liberdade desfrutada pela França.

Há alguns dias, fazendo um balanço dos primeiros cem dias da nova presidência francesa, o "Washington Post" escreveu, "Macron está agora em campanha para ser líder do mundo livre". Resta saber se não se trata de um exagero. Se a França, e Macron, têm espaço e força suficiente para se reposicionarem no cenário europeu e internacional.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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