Depois de 70 anos da independência, animosidade entre Índia e Paquistão segue acesa

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • TAUSEEF MUSTAFA/AFP

Há setenta anos o mundo desabou na Ásia. Terminava em 1947 o domínio colonial britânico no subcontinente indiano, iniciado em 1858, no reinado da rainha Vitória. Negociações longas e complicadas sobre a descolonização fracassaram no pós-guerra. E a independência de 1947 redundou na chamada partição da Índia Britânica. No coração do problema ressurgia o conflito multissecular entre hinduístas e muçulmanos.

De um lado ficou a Índia, majoritariamente hinduísta, mas com uma forte minoria muçulmana. De outro lado, o Paquistão, majoritariamente muçulmano. Logo que foi anunciado o recorte do território dos dois países começaram êxodos e massacres de quem estava no "lado errado" das novas fronteiras.

Separado em dois territórios distantes um do outro, o Paquistão acaba perdendo sua província oriental que se torna independente em 1971 com o nome de Bangladesh. No meio tempo, a Índia e o Paquistão travaram quatro guerras (1947,1965, 1971 e 1999). O último conflito foi uma guerra com armas convencionais relativamente limitada, mas sob o ameaça apocalíptica do arsenal nuclear de ambos os países. Problemas de fronteira também estão na origem na guerra entre a Índia e a China, ocorrida em 1962.

Apesar de tudo, a Índia manteve sua configuração democrática no âmbito de uma Constituição federativa e laica. Neste contexto de transformações, a Índia já se apresenta como a maior democracia mundial, como o país evoluirá nos próximos anos?

De imediato, há o questionamento sobre a política do primeiro-ministro Narendra Modi. Eleito em 2013, Modi e o seu partido Bharatiya Janata Party (BJP), representando o nacionalismo hindu, parecem em boa posição para vencer as legislativas de 2019 e continuar dirigindo a Índia. Porém, Modi tem mostrado certa intolerância na questão religiosa, ameaçando assim a laicidade que fundamenta a Índia. No plano regional, a animosidade indo-paquistanesa continua acesa e os dois países não superaram os traumas causados pela Partição de 1947 e pelos conflitos subsequentes. Enfim, a rivalidade sino-indiana na Ásia Central e no Oceano Índico aparece como um dado permanente da geopolítica mundial. Desde o mês de junho, as Forças Armadas indianas e chinesas se encaram, por enquanto pacificamente, nas alturas do Himalaia, na zona fronteiriça entre os dois países. Na realidade, estendendo sua Nova Rota da Seda, a China ameaça as zonas de influência indianas.

Posicionada para ultrapassar a China e se tornar o país mais populoso do mundo por volta de 2018, a Índia pode também ter o PIB maior que o da China em 2050. Caso estas previsões se confirmem, ocorrerá então algo inédito na história moderna: a Índia será o país mais populoso e mais rico do mundo. Numa certa medida, o futuro século XXI está pendente nos desafios que serão enfrentados pela democracia indiana.  

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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