Pós-Brexit: União Europeia protegerá setores estratégicos

Luiz Felipe de Alencastro

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Na última quarta-feira (13), Jean-Claude Juncker, presidente (primeiro-ministro) da Comissão Europeia, fez a declaração de política geral da União Europeia (UE) que reinicia as atividades anuais do Parlamento Europeu. Juncker fez um discurso bastante otimista, afirmando que os tempos são propícios ao fortalecimento da UE. De fato, o desemprego na UE atingiu o seu nível mais baixo dos últimos nove anos e o crescimento econômico da região nos últimos meses é maior do que o dos Estados Unidos.

A respeito do Brexit, Juncker disse que lamentava a saída do Reino Unido, mas que era preciso seguir em frente. Mais tarde, numa entrevista, ele foi mais duro: "o Brexit não é o futuro, o Brexit já faz parte do passado e nós queremos olhar para o futuro". Suas novas propostas incluem a expansão da zona euro aos países da UE que ainda não adotaram a moeda única. Retomando sugestões do presidente da França, Emmanuel Macron, Juncker afirmou que UE protegeria os setores chaves de sua economia.

"Se uma empresa pública estrangeira quiser comprar um porto estratégico europeu, uma parte de nossa infraestrutura energética ou de nossas empresas na área de tecnologia militar, isso só poderá ser feito mediante um exame aprofundado e um debate". Embora nenhum país tenha sido citado, a China se sentiu certamente visada, visto que as empresas chinesas têm adquirido ou procurado adquirir setores estratégicos da economia europeia. Na sequência, uma declaração conjunta dos governos alemão, francês e italiano, endossou a declaração de Juncker, confirmando assim a maior coesão econômica da UE pós-Brexit.

Também deve ser notado que Juncker não retomou as propostas de Macron referente à criação de um orçamento unificado e de um ministro de Finanças para a zona euro. Alegando que isso dividiria a UE entre países da zona euro e países que ainda guardam sua moeda nacional, Juncker deixou a ideia de lado. Angela Merkel também havia feito reservas a essas propostas. Provavelmente, Juncker quis evitar qualquer embaraço para Merkel na última semana de campanha das eleições gerais alemãs.

De fato, a vitória da aliança entre os democratas cristãos e os sociais-cristãos (CDU-CSU), liderados por Angela Merkel, está praticamente assegurada. Mas também é quase certo que Merkel não obtenha maioria absoluta no sufrágio do próximo dia 24. Nesse caso, os editorialistas alemães preveem a possibilidade de uma aliança "Jamaica", reunindo, como na bandeira do país caribenho, as cores dos três blocos partidários o CDU-CSU (que tem o negro como cor símbolo), os liberais do FDP (com a cor amarela) e o bloco do Partido Verde e os Alternativos (Bündnis 90-Die Grünen).  

De todo modo, a maioria dos comentadores pensa que 2018 marcará o início de uma nova era na União Europeia.

          

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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