O Nobel da Paz e as ameaças de conflitos nucleares

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

A atribuição do Nobel da Paz à Campanha Internacional para a Abolição de Armas Nucleares (Ican), organização composta por quatrocentas entidades espalhadas em 101 países, deu lugar a duas explicações complementares.

Em primeiro lugar, o prêmio confirmou escolhas anteriores que galardoaram outras associações internacionais pacifistas e antinucleares como a Associação Internacional dos Médicos pela prevenção da guerra nuclear (Nobel da Paz em 1985 e inspirador da Ican), o Movimento Pugwash em 1995 e a Agência Internacional de Energia Atômica, órgão da ONU, que recebeu o Nobel da Paz em 2005.

A segunda explicação sobre a escolha da Ican, e das precedentes organizações internacionais, tem a ver com as controvérsias suscitadas por algumas das personalidades premiadas com o Nobel da Paz.

O exemplo mais flagrante é o caso de Aung San Suu Kyi, ex-prisioneira da ditadura militar de Mianmar (ou Birmânia) e Nobel da Paz de 1991. Tendo se tornado chefe do governo de seu país, Aung San Suu Kyi se omite agora a respeito da faxina étnica que o exército birmanês está praticando contra a minoria muçulmana Rohingya. A cidade e a universidade de Oxford, onde Aung San Suu Kyi se formou, já anularam as honrarias concedidas a ela e centenas de milhares de pessoas assinaram uma petição para que o Nobel de 1991 lhe seja retirado.

Bookmakers londrinos calculavam que o Nobel da Paz iria para o Papa Francisco ou para Angela Merkel, pelo papel de ambos na defesa dos direitos dos refugiados e dos migrantes. Mas os estudos recentes sobre os Nobel da Paz distribuídos desde 1901 mostram que o comitê tem preferido premiar cada vez mais as organizações internacionais.

Resta que o prêmio foi concedido à ICAN por causa de sua campanha antinuclear começada em 2007 e concluída no último dia 20 de setembro pelo Tratado de Interdição de Armas Nucleares, votado por 122 dos 192 países membros da ONU.

Em graus diversos, a Áustria, o Brasil, o México, a África do Sul e a Irlanda apoiaram a campanha da Ican na ONU. O Tratado só entrará em vigor quando for ratificado por 50 país e só se aplicará aos países signatários.

Na realidade, o impacto do Tratado é sobretudo simbólico na medida em que ele não foi assinado pelas potências nucleares. Ou seja, nem pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, nem tampouco pelos quatro outros países detentores dessas armas (Israel, Índia, Paquistão e Coreia do Norte).

Sem grandes ilusões de obter sucesso no curto prazo, o prêmio à Ican torna mais aguda a ameaça representada pelo enfrentamento entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte, como também pelo provável abandono americano do acordo de 2015 sobre o controle do programa nuclear do Irã.

Sem citar nenhum dos dois casos, a presidente do comitê do Nobel da Paz, ao elencar os motivos do prêmio concedido à Ican, declarou: "Nós vivemos num mundo onde o risco de utilização de armas nucleares nunca foi tão grande desde muito tempo".

Antônio Guterres, o secretário-geral da ONU disse a mesma coisa há um mês atrás na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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