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A demografia brasileira e o debate sobre imigração

Luiz Felipe de Alencastro

29/12/2017 14h04

Neste fim de ano, o USCB (Census Bureau americano), correspondente ao IBGE, divulgou projeções sobre a população dos EUA e do mundo em 2018. Os dados são baseados no Censo de 2010, e se inscrevem na preparação do próximo Censo decenal. (Ilustrando mais uma vez a baderna trumpiana, senadores democratas advertiram que o Censo de 2020 pode ser prejudicado porque os cargos de diretor e vice-diretor do USCB estão vagos desde o final do governo Obama).

O ponto essencial é que os dados indicam, pela primeira vez desde dos anos 1930, uma tendência de declínio populacional nos EUA. Mas as causas da queda demográfica são bem distintas. Nos anos 1930, houve a brutal recessão provocada pela crise de 1929.

Agora, a queda demográfica corresponde à redução da taxa de fecundidade (número de filhos por mulheres em idade de procriar) e ao envelhecimento dos americanos. Os gráficos do USCB resumem, segundo a segundo, o ritmo da demografia: a cada 8 segundos nasce um americano, morre outro em cada 14 segundos e entra um imigrante em cada 29 segundos. No somatório da conta, em cada 14 segundos, os EUA ganham um novo habitante.

Fica também claro que se o fluxo de imigrantes for reduzido à força, como querem Trump e seus eleitores, a população americana vai diminuir mais aceleradamente. 

O IBGE não tem um relógio populacional destes no seu site. Mas o USCB também estabelece projeções sobre o resto do mundo que podem ser comparadas ao Censo mundial feito pela ONU em 2012 e corrigido em 2015, assim como aos dados do site do World Factbook, da CIA.

Desse modo, algumas conclusões podem ser tiradas sobre a evolução demográfica dos EUA e do Brasil. Primeiro, note-se que a taxa de fecundidade americana é mais alta (1,9) do que a brasileira (1,7). Em segundo lugar, a taxa de migração internacional indicada acima (correspondendo a 3,90 imigrantes em cada 1.000 habitantes dos EUA) é liquida mesmo, ou seja, houve a subtração dos americanos e estrangeiros com vistos de residência saídos dos EUA para morar em outro país.

Ora, no Brasil esta taxa é negativa: -0,10 em cada 1000 brasileiros ou imigrantes com visto permanente no Brasil. Isto é, segundo os dados de 2012 do World Factbook, o Brasil tem um movimento de emigração mais forte do que o de imigração. . Sai mais gente do que entra no país. O efeito combinado das duas variáveis indica que o declínio demográfico será mais acentuado no Brasil do que nos EUA. Observe-se ainda que a proporção de imigrantes nos EUA (14% da população) é bem maior do que no Brasil (0,9%).

Os dados devem ser contextualizados com as projeções do Censo Mundial para o século 21 realizadas pela ONU. Os resultados são claros, a população brasileira continuará subindo até atingir, por volta de 2050, o pico de 232 milhões de habitantes, e depois começa a cair acentuadamente.

Por volta de 2085, estaremos com a mesma população que temos hoje, 208 milhões. Com um agravante sério, a tendência do crescimento demográfico será fortemente declinante, em vez de ser ascendente como atualmente.

Tais considerações devem ser levadas em conta no debate sobre a nova Lei de Migração e na discussão sobre a imigração no Brasil. Sem imigrantes o Brasil afundará de vez. Parece que ainda será lá longe, no final do século. Mas, quando se trata de demografia, o longo prazo começa agora, já começou.