Eleições na Europa, dúvidas e ameaças

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • John Macdougall/AFP

Três eleições na União Europeia (UE) criam um suspense e novas dúvidas sobre o destino da UE. A primeira é uma eleição que está tendo efeitos retardados. Parcialmente vencedora das eleições parlamentares alemãs no último mês de setembro, Angela Merkel peleja desde então para formar uma aliança partidária que lhe permita governar. No último domingo (21), o partido social-democrata (SPD) realizou um primeiro escrútinio interno que abre a via para uma aliança com Merkel. Caso este voto seja confirmado pelo referendo que o SPD  realizará em fevereiro entre seus militantes, Angela Merkel será de novo a chefe do governo alemão. Porém, o longo impasse provocado pelas eleições de setembro, que deixa Alemanha sem governo há quatro meses, e que talvez desemboque em novas eleições, enfraquece Merkel e a própria Alemanha.

Na Itália, haverá eleições no dia 4 março e o cenário também está confuso. As sondagens indicam que nenhum partido obterá uma maioria parlamentar nítida. Nessa hipótese, o partido de Berlusconi, Forza Italia, terá um papel central. Berlusconi, condenado por fraude fiscal, é inelegível, mas manda em seu partido. Sobretudo, ele aparece como um conservador pró-europeu frente aos líderes de partidos anti-imigrantes e antieuro. O primeiro desses partidos é a Liga do Norte, que se apresenta aos eleitores numa coligação com o partido de Berlusconi. Seu líder, Matteo Salvini, defende que o euro é "uma experiência fracassada que trouxe prejuízos à economia italiana". Salvini não tem muitas chances porque a saída do euro é tão ou mais difícil e imprevisível que o Brexit. Porém, em março, depois das eleições, a Itália estará, provavelmente, mergulhada em negociações interpartidárias complicadas e sem governo.

Enfim, em abril ocorrem eleições gerais na Hungria. Nesse caso, não há dúvidas. O vencedor do escrutínio será, muito provavelmente, o partido Fidesz, dirigido por Viktor Orban. No poder desde 2010, Orban poderá assim cumprir seu terceiro mandato consecutivo como primeiro-ministro da Hungria. Autoritário e aliado de Putin, Viktor Orban tem sido criticado pela União Europeia e pelos Estados Unidos. O longo relatório do Senado americano sobre a política russa de intervenção nas democracias europeias diz com todas as letras : "No seio da Otan e da UE, o primeiro-ministro Orban é, talvez, o líder que mais apoia Putin, seu estilo de liderança e sua visão do mundo".

A UE já viu coisa pior. Mas, com o Brexit se arrastando e o prenúncio de crises políticas em vários países, haverá pouco espaço para Merkel e Macron lançarem as medidas de reforço do euro e da UE que os dois vem prometendo há algum tempo aos seus cidadãos e aos outros europeus. 

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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