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Na Alemanha, sindicatos entram em greve por redução da jornada de trabalho

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

01/02/2018 13h26

Os sindicatos alemães entraram em greve porque a situação econômica na Alemanha está boa. Tal é quadro que se apresenta na primeira economia da União Europeia (UE) e quinta maior economia do mundo. Crescendo 2,2% em 2017, a maior taxa dentre as potências industriais da UE, a Alemanha tem uma taxa de desemprego anual de 5,7% (3,6% em dezembro), a mais baixa desde a reunificação do país, em 1990.

A greve é conduzida, entre outros, pelo poderoso sindicato dos metalúrgicos IG Metall, que representam assalariados em pequenas e grandes indústrias, como Siemens, Daimler ou Porsche. Duzentos mil trabalhadores entraram em greve. Até ao fim desta semana, 250 empresas serão afetadas em todo o país. Ao contrário das ações sindicais habituais, que paralisam a atividade por algumas horas e depois retomam o trabalho, a grave atual prevê paradas de 24 horas.

O que desejam os sindicatos? Essencialmente duas coisas, um aumento de salário de 6% e, de maneira mais original, uma redução do horário legal da semana de trabalho para 28 horas. O teto legal do trabalho hebdomadário no país é de 35 horas. Os sindicatos reclamam o direito de trabalhar 28 horas por semana durante dois anos com a garantia de retomar em seguida o trabalho regular de 35 horas por semana.

A redução do tempo semanal de trabalho, não obrigatória e concedida sob demanda do assalariado, teria uma redução correspondente de salário. Exceto se o solicitante for se ocupar de um filho menor de 14 anos ou familiar que é seu dependente direto. A retomada do crescimento econômico levou a uma penúria de mão-de-obra qualificada na maioria das empresas europeias. Na Alemanha, 26% das indústrias declaram que sua produção está sendo limitada pela falta de trabalhadores.

Nesta perspectiva, a greve parece ter sua lógica. A retomada econômica e a falta de mão de obra qualificada oferecem mais poder de barganha aos sindicatos, favorecendo suas reivindicações. Tanto mais que depois na crise iniciada em 2008, na grande recessão, os sindicatos aceitaram reduções de salário e da jornada de trabalho para não piorar a situação de empresas atingidas pela grande recessão. 

Mas há outros aspectos menos habituais no atual movimento grevista. Em primeiro lugar, a IG Metall e os outros sindicatos procuram a adesão de jovens trabalhadores nascidos ou crescidos no século atual, da faixa de 18-35 anos, cujo modo de vida evoluiu. Trata-se de pessoas que desejam reduzir o tempo de sua vida professional em proveito de sua vida familiar e do lazer. Como nota Jutta Rump, uma especialista alemã citada pelo jornal francês Libération, "valores estão mudando na Alemanha". Aliás, os estudos mostram que metade dos alemães desejam trabalhar menos.

Ainda há dificuldades para os trabalhadores alemães. Como observam os especialistas, a taxa de desemprego está baixa porque o número de empregos precários e com salários reduzidos aumentou. Há também o contexto particular da demografia alemã, marcado por uma queda da natalidade que se iniciou nos anos 1970. Segundo os especialistas, mesmo com um maior número de imigrantes, haverá uma falta estrutural de trabalhadores especializados que, possivelmente, levará muitos alemães a atrasar sua data de aposentadoria.

Mas essencial é que o país apontado por várias gerações de europeus e de outros estrangeiros como o exemplo mais acabado de disciplina e de dedicação ao trabalho entra agora em greve para desfrutar de uma das mais baixas jornadas de trabalho contemporâneas. Para aproveitar mais a vida.

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