Com sobretaxa ao aço, Trump busca dividendos políticos junto a seu eleitorado mais radical

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • AFP

O anúncio de Donald Trump sobre o aumento das tarifas de importação de aço e alumínio dos Estados Unidos terá desdobramentos importantes. Como é sabido, Trump derrotou os principais candidatos republicanos nas prévias à presidência antes de chegar à Casa Branca com um programa político mais à direita do que a doutrina partidária republicana. Afastando-se das posições mais liberais dos republicanos sobre a imigração durante as presidências Reagan, Bush pai e Bush filho, Trump radicalizou a expulsão dos imigrantes ilegais e endureceu a política americana nesta área.

Em seguida, Trump aumentou os gastos civis e militares, deixando de lado o rigor orçamentário, outra marca da administração republicana. Enfim, intervém com a medida protecionista sobre a importação do aço e do alumínio, tomada de maneira quase discricionária pelo presidente, sem muita preparação ou consulta e contra a opinião de dois de seus principais assessores econômicos, Gary Cohn e o secretário do Tesouro (ministro das Finanças),  Steve Mnuchin. Fazendo uma análise dos pontos de divergência entre Trump e a política tradicional republicana, o Le Monde apontou que a virada protecionista acentua a "trumpização" do partido republicano.

O fato é que vários senadores republicanos manifestaram insatisfação com as medidas de Trump. De seu lado, o presidente da Câmara dos deputados, o republicano Paul Ryan, incitou a Casa Branca a levar em conta outras análises antes de implementar tais medidas, alertando sobre as "consequências indesejadas" que as novas tarifas poderiam criar. Sem considerar as reações internacionais contra o anúncio de Trump, é interessante observar as consequências desproporcionais das novas tarifas no próprio contexto da economia americana.

Segundo Adam Posen, um especialista de primeiro plano no assunto, as usinas siderúrgicas americanas empregam, no máximo, 140 mil trabalhadores e contribuem com US$ 36 bilhões (R$ 116,64) para o PIB americano. Enquanto as indústrias consumidoras de aço (automóvel, armamento, etc.), cujos custos serão elevados com as novas tarifas, têm 6,5 milhões de empregados e adicionam US$ 1 trilhão (R$ 3,2 trilhões) à economia americana.

Por trás desta aparente incoerência, há a opção de Trump de defender os trabalhadores dos setores tradicionais americanos, como havia sido o caso nos incentivos à indústria carvoeira, mesmo em detrimento de outros setores econômicos americanos. Obviamente, Trump procura dividendos políticos junto a seu eleitorado mais radical, sem tomar em consideração o impacto global de suas medidas. No limite, Trump pode se servir da oposição internacional contra as novas tarifas sobre o aço e o alumínio para sair da OMC (Organização Mundial do Comércio), radicalizando o protecionismo americano.

Resta saber até onde Trump pode levar esta política sem suscitar reações mais pesadas dentro de seu próprio governo e de sua base parlamentar e econômica. Segundo Jim Cramer, comentarista econômico do canal CNBC, há dúvidas sobre a permanência de Gary Cohn na chefia da assessoria econômica de Trump. Ex-presidente de Goldman Sachs, grupo financeiro multinacional sediado em Nova Iorque, Gary Cohn, na opinião de Jim Cramer, mantém ainda a impressão de que "não há muito caos" na Casa Branca. Como disse o comentarista da CNBC, a saída de Cohn, notoriamente contrário à introdução das novas tarifas, teria forte impacto na bolsa americana.

Pode-se também concluir que este fato marcaria a contradição mais flagrante entre a indústria doméstica dos Estados Unidos e capitalismo global americano, entre o conservadorismo que tem raízes no nacionalismo da primeira metade do século 20, e o conservadorismo globalizado da atualidade.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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