Topo

Recursos naturais do Ártico aceleram corrida da China ao Polo Norte

Xinhua/Liang Youchang
Imagem: Xinhua/Liang Youchang
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

19/04/2018 14h42

A expansão chinesa nas cinco partes do mundo tem sido amiúde estudada e comentada. O mais recente episódio desta expansão tem como alvo a última grande fronteira econômica e política planetária: o Ártico.

O interesse geopolítico na Região Ártica tem se evidenciado nas duas últimas décadas. Em 1996 foi criado o Conselho do Ártico formado pelos oito países cujos territórios circundam o Polo Norte: Canadá, Rússia, Dinamarca, Islândia, EUA, Suécia e Finlândia. Destinado a proteger a região e seu desenvolvimento sustentado, o Conselho passou a lidar com questões internacionais mais complexas.

De fato, o aquecimento planetário provoca um degelo constante no Polo Norte, gerando disputas sobre as riquezas minerais da região, sobre o traçado das fronteiras e abrindo novas rotas marítimas intercontinentais. Além disso, o estudo científico do impacto do aquecimento global e da poluição no Ártico interessa muitos pesquisadores, sobretudo nos países que contém zonas glaciais. Treze países europeus e asiáticos, entre os quais a China, têm assim estatuto de observadores no Conselho do Ártico (CA).

Porém, a China já deixou claro que o estatuto de observador do CA não está à altura de suas ambições. Indo direto ao ponto, o presidente Xi Jinping declarou em 2014 que a China quer ser tornar “uma grande potência polar”.

Como notou com ironia a revista Economist, a região chinesa mais próxima do Polo Norte está tão distante do Ártico quanto Berlim. Mas, a China, como as duas grandes potências verdadeiramente polares, os Estados Unidos e a Rússia, está de olho nos metais raros, no gás e no petróleo da Região Ártica.

Além do mais, a nova rota marítima transpolar, unindo Roterdã a Shangai representa uma dupla vantagem para a China. Por um lado, há uma redução do percurso entre os dois portos. Por outro lado, a China passa a dispor de uma alternativa à rota atravessando o estreito de Malaca, zona disputada pelo Oriente e o Ocidente desde quando Afonso de Albuquerque conquistou o porto de Malaca, em 1511.

Mas a China estende também o braço em direção à Europa. O governo chinês investe bastante em alguns países da União Europeia, tendo criado um grupo chamado “16 + 1” que a associa a dezesseis países da Europa Central e Oriental.

Os interesses chineses na região já causam fricções e divisões internas na UE. Há, é claro, a rivalidade econômica que tem levado os grandes países da UE, e principalmente a França e a Alemanha, a manifestarem sua inquietação sobre a penetração dos capitais chineses na zona euro e nos Bálcãs. Mas há também o preço político que a China cobra dos países onde investe.

Desse modo, recebendo polpudos investimentos chineses, a Grécia e a Hungria bloquearam uma declaração da UE que criticava as manobras expansionistas do governo de Pequim no Mar da China Meridional. Pouco tempo antes, a Grécia também impediu um protesto da UE na ONU contra a situação dos direitos humanos na China.

Mais Notícias