Trump pode encerrar acordo nuclear com Irã, e isso coloca em xeque segurança mundial

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Jim Watson/AFP

Esta terça-feira (8) pode vir a ser um dia fatídico para a paz mundial no século 21. Dia 12 é a data em que o presidente Donald Trump deveria informar se os Estados Unidos continuam a apoiar o Acordo Nuclear Iraniano, conhecido por sua sigla inglesa JCPOA (Joint Comprehensive Plan of Action).

Mas, em um tuíte no final da manhã desta segunda-feira, o presidente norte-americano informa que antecipou o anúncio de sua decisão para terça-feira à tarde. 

Assinado em 2015, depois de intensas negociações, entre o Irã, e os Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha, Rússia e China, o Acordo fixa controles e limites ao programa nuclear iraniano em troca do fim das sanções econômicas impostas ao país.

Somente entre 2012 e 2016, o Irã havia perdido 160 bilhões de dólares de renda petrolífera por causa dessas sanções. Trump anunciou que o JCPOA era "mau" e "terrível" e que os EUA se retirariam do acordo.

Os signatários europeus responderam que se tratava de uma decisão equivocada. Mais ainda, a União Europeia, pela voz de sua representante para Política Externa e Segurança, Federica Mogherini, declarou que o Irã não violou o JCPOA e que este acordo não pode ser renegociado. Declaração confirmada pela Agência Internacional da Energia Atômica, órgão da ONU.

Pouco tempo antes, Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, num discurso feito em inglês que, segundo o correspondente do Le Monde em Jerusalém, parecia se dirigir, "sobretudo a um público de uma pessoa, Donald Trump", atacara o Acordo "terrível, que não deveria ter sido concluído".

Há também outro país do Oriente Médio interessado em renovar o isolamento diplomático e comercial do Irã: a Arábia Saudita. Para além da rivalidade histórica entre árabes sunitas e iranianos xiitas, a Arábia Saudita tem planos ambiciosos de desenvolvimento. 

Para fechar suas contas ela precisa, segundo um relatório do FMI, que o preço do barril de petróleo suba de U$70 (preço médio de 2017), para U$88 o barril.

Ora, um dos fatores que mantiveram o preço do petróleo estável foi a volta ao mercado mundial da produção iraniana. Desde a implementação do JCPOA, a produção iraniana retornou aos níveis registrados antes das sanções econômicas, isto é, 3,8 milhões de barris por dia.

Com os investimentos das petroleiras europeias, chinesas e russas, a produção do Irã pode subir a 4 ou 5 milhões de barris diários, segundo os especialistas. 

Mas há outros fatores em jogo. Os europeus têm feito campanha pesada em Washington para manter o Acordo Nuclear Iraniano, mesmo prevendo sua complementação, como declarou recentemente o presidente da França, Emmanuel Macron, no seu discurso no Congresso americano.

Angela Merkel também se encontrou com Donald Trump na Casa Branca para reiterar o apoio da Alemanha à continuação do Acordo. De Londres, falando num dos programas favoritos de Trump no canal Fox News, o ministro do exterior do Reino Unido, Boris Johnson, como os seus aliados europeus, pediu que os Estados Unidos não se retirassem do Acordo.

Outra novidade de última hora é a declaração do presidente do Irã, Hassan Rouhani, sugerindo que seu país pode permanecer no JCPOA mesmo que os Estados Unidos se retirem do Acordo.

Ao lado da União Europeia, a maioria dos observadores e órgãos de imprensa ocidentais considera que o JCPOA é o melhor meio de manter a política nuclear iraniana sob controle.

Como escreve a Economist, o rompimento do JCPOA pode levar o Irã a construir armas nucleares, fazendo com que a Arábia Saudita e o Egito retomem seus planos de se tornarem potências nucleares.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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