No comércio internacional, é Trump contra todos

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Foto: Nicholas Kamm / AFP

Com a entrada em vigor nos Estados Unidos das tarifas de importação de aço e alumínio, Trump dá um passo decisivo em direção à guerra comercial contra o resto do planeta. Até o final da semana passada, os EUA haviam deixado em suspenso a aplicação das novas tarifas sobre as importações oriundas da União Europeia, do Canadá e do México, principais parceiros comerciais e aliados de Washington.

Com a generalização das tarifas, o México juntou-se à União Europeia e ao Canadá para apresentar queixa à Organização Mundial do Comércio (OMC) contra as práticas comerciais americanas. O México e o Canadá foram mais adiante, impondo desde sexta-feira (1) novas tarifas sobre certos produtos americanos. Há uma série de retaliações tarifárias engatilhadas em diversos países contra os Estados Unidos, mas também contra outros países.

Em particular, os europeus temem que os países cujas aciarias perdem espaço nos Estados Unidos redirecionem sua produção para a Europa, derrubando os preços e a produção do aço europeu. Desde logo, terceiro maior mercado do mundo, depois dos Estados Unidos e da China, a UE reforça a proteção de sua economia. Assim, ao mesmo tempo em que apresentava queixa contra os EUA na OMC, a UE tomou medida similar contra a China, acusando-a de impor "transferências injustas de tecnologia" às empresas europeias instaladas no território chinês.

A multiplicação recente de medidas protecionistas contrasta com o aumento de 3,6% do comércio mundial em 2017, a mais alta taxa de crescimento observada desde 2013. Considerando a OMC "inamistosa" aos EUA e excessivamente favorável à China, o governo Trump tem bloqueado a nomeação de magistrados necessários ao funcionamento da organização. Partidários de uma reforma e uma ampliação do papel da OMC, os europeus temem  que a política de Trump prejudique irremediavelmente a organização.

Resta que, nos Estados Unidos, setores conservadores e grandes doadores do partido republicano que aplaudiram as reduções de impostos decretadas por Trump, passaram a se preocupar com sua estratégia de guerra comercial e de afrontamento com os aliados tradicionais do país. Na verdade, todos estão de olho no impacto que as medidas protecionistas podem ter nas eleições americanas de novembro, que renovarão a Câmara dos Representantes e um terço do Senado. No último mês de março, Marko Kolanovic, um dos principais analistas do grupo financeiro multinacional JP Morgan Chase, advertiu que Trump deveria evitar conflitos comerciais cujo impacto na economia americana o fizesse perder as eleições de novembro. E concluiu: "eleições perdidas abrem a via para o impeachment e outras complicações".

Num artigo desta semana, a Economist lembra que os democratas só precisam ganhar duas cadeiras de senadores e 25 cadeiras de deputados para obter maioria nas duas Casas do Congresso. Por uma série de circunstâncias, tal objetivo parece estar fora do alcance do partido democrata. No entanto, os democratas aumentarão o número de seus representantes no Congresso, restringindo a margem de manobra de Trump na segunda etapa de sua presidência. De todo modo, logo em seguida às eleições de novembro, Trump estará fixado na sua campanha para a reeleição em 2020, a qual, segundo a maioria dos analistas americanos, não será fácil.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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