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O fiasco do G7 e os novos rumos dos aliados dos americanos

A primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se encaram rodeados de líderes do G7 - Jesco Denzel/AFP
A primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se encaram rodeados de líderes do G7 Imagem: Jesco Denzel/AFP
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

14/06/2018 16h05

Ainda é cedo para avaliar as consequências do encontro entre Donald Trump e Kim Jong-un, a respeito da desnuclearização da península coreana.  Mas já é possível dizer que os resultados das atividades do presidente americano na reunião do G7, em Quebec, foram desastrosos.

De saída, houve os incidentes protocolares. Trump chegou atrasado na reunião sobre a igualdade de gêneros, e se comportou com descortesia na reunião fechada com os outros seis chefes de Estado e de governo.

Segundo um relato do New York Times, durante a intervenção de Emmanuel Macron, que falava na sua língua natal, Trump deixou de lado o fone de ouvido, dispensando-se de ouvir a tradução simultânea da alocução do presidente francês.

Por momentos, Trump cochilou ou quis dar a impressão que cochilava enquanto os outros governantes falavam. Quando o tema do comércio externo foi mencionado, ele mudou de atitude e passou a dar pitos em Macron, em Angela Merkel e no primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau. 

Terminado o encontro, já no avião que o levava para o encontro com Kim, Trump enviou uma saraivada de tuites agressivos contra Trudeau e decidiu não assinar o comunicando final do G7. 

O caso é sem precedentes na história do G7, no qual se encontram os aliados mais próximos dos Estados Unidos, dois dos quais são membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (França e Reino Unido).

Num editorial, o jornal parisiense Le Monde observou: "Trump parece mais atencioso com o ditador Kim Jong-un... do que com seus aliados europeus, japonês e canadense, com quem seu país deve compartilhar uma comunidade de interesses e de valores".

Frente à deterioração de suas relações com o presidente dos Estados Unidos, os líderes europeus e o primeiro-ministro canadense reorientam suas decisões geopolíticas. 

Referindo-se ao fiasco da reunião do G7, sob um cartaz proclamando “#Europe United”, o ministro do Exterior alemão, Heiko Mass, disse que Trump desestruturava alianças duradouras, funcionando há décadas, “com a rapidez que leva para escrever um tuite” e completou, “agora que a administração americana coloca abertamente em questão nossos interesses e valores, nós [europeus] temos que tomar uma postura mais sólida”.

No Canadá, onde Justin Trudeau recebeu um apoio maciço da opinião pública e dos parlamentares no seu enfrentamento com Trump, pesa também a ameaça americana de sabotar o NAFTA (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio).
Diante disso, a geopolítica canadense mudou para o rumo do Pacífico.  Assim, o governo canadense anunciou sua decisão de ratificar e dar “prioridade absoluta” à Parceria Transpacífico (TPP). Como é sabido, Trump retirou os Estados Unidos deste tratado comercial formado, sob a liderança do presidente Obama, para travar a expansão chinesa no Oceano Pacífico.

Assinado em março pelo Canadá, o Chile, o México, o Peru, a Austrália, Brunei, Singapura, Japão, Malásia, Nova Zelândia e o Vietnã, o TPP associa economias e países importantes. Sua entrada em vigor ocorrerá 60 dias após a data sua ratificação por pelo menos seis dos onze países membros. Nas próximas semanas, com ratificação do Canadá, ao lado do Japão e da Nova Zelândia, que já ratificaram o tratado, o TPP, que representa 15% do PIB mundial, dará um grande passo adiante.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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