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Brexit: Reino Unido fará novo referendo para a saída da UE após setembro?

Daniel Leal-Olivas/AFP
Imagem: Daniel Leal-Olivas/AFP
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

24/07/2018 21h43

O recesso parlamentar de verão, do final de julho ao início de setembro, constitui uma das mais sólidas tradições políticas britânicas. De férias, os parlamentares só podem ser chamados para deliberar neste período, ou nos fins de semana, em casos graves, como ocorreu na Segunda Guerra. Porém, o recesso deste ano começa de maneira nada tranquila, em meio ao tenso debate que emergiu nos últimos dias: em setembro o Parlamento votará um novo referendo para decidir se o país fica ou sai da União Europeia? Para onde vai o Reino Unido? Tais são as questões que afloram dias depois do fiasco do roteiro (White Paper) sobre as etapas do Brexit apresentado por Theresa May.

Aderindo à tese de uma ruptura moderada com a UE (soft  Brexit) o plano da primeira-ministra provocou dissidências dentro do próprio governo, levando a demissão do ministro encarregado do Brexit, David Davis, e sobretudo de Boris Johnson, ministro do Exterior e um dos principais líderes da campanha do Brexit em 2016. Para aprovar o White Paper, Theresa  May teve negociar propostas dos parlamentares pró-Permanência (Remainers) conservadores e trabalhistas, desagradando muitos e tornando patente o despreparo do governo para encarar as datas limites: o acordo prévio com a UE no próximo mês de outubro e a saída efetiva do país no dia 29 de março de 2019.

Caso não haja acordo, ocorrerá o "hard  Brexit" que todos afirmam querer evitar, embora Theresa  May tenha perdido tempo afirmando: "um desacordo é melhor que um mau acordo" (no deal  is  better  than a bad deal"). No caso de uma ruptura sem mediação entre as duas partes, o Reino Unido passará ser considerado um país estrangeiro, com consequências grandemente negativas para o país, mas também para a UE.

Assim, um estudo do FMI publicado nesta semana, indica que o Brexit subtrai 4% do PIB britânico, caso os acordos entre as duas partes se restrinjam às regras básicas da Organização Mundial do Comércio. Mas os 27 países da UE também serão atingindo, sofrendo uma redução média de 1,5% do PIB. Com a exceção da Irlanda, umbilicalmente conectada à economia britânica, que sofrerá um impacto econômico similar ao do Reino Unido.

Eliminada a hipótese do hard  Brexit, há ainda a possibilidade da convocação de novas eleições parlamentares neste outono para tirar a questão a limpo. Sucede que os trabalhistas também estão divididos sobre o Brexit, tornando aleatória a possibilidade de uma maioria parlamentar mais homogênea que a atual para negociar a saída da UE.

Neste contexto, surgiu a proposta do novo referendo que submeteria ao eleitorado três opções, algo inédito no Reino Unido, onde nunca houve referendos de múltiplas escolhas. Haveria então três propostas na cédula: uma em favor da ruptura radical com a UE (hard  Brexit), outra pela ruptura moderada (soft  Brexit) e outra pela permanência na UE (Remain). Falta também decidir como ocorrerá o voto e votar a legislação atinente.

Uma sondagem publicada pela Economist mostra resultados inconclusivos no voto em tríplice escolha.

No mês de setembro, quando findar o recesso parlamentar, a posição do Reino Unido estará ainda mais fraca: negociando com um governo fragilizado a UE não tem nenhum motivo para fazer mais concessões aos britânicos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL