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Luiz Felipe Alencastro


O que será da Alemanha após a saída de Merkel?

A chanceler alemã, Angela Merkel - AFP
A chanceler alemã, Angela Merkel Imagem: AFP
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

02/12/2019 11h58Atualizada em 02/12/2019 22h32

Angela Merkel avisou que deixará a vida política em setembro de 2021, quando termina a legislatura que a elegeu, pela quarta vez, chefe do governo alemão. Há um ano, ela conseguiu entronizar sua sucessora Annegret Kramp-Karrembauer (conhecida na mídia como AKK) na direção de seu partido, a União Democrata-Cristã (CDU) e, eventualmente, na direção do governo alemão.

Merkel é a mais importante dirigente alemã do século 21. Iniciando seu 15° ano na chefia do governo, tem tido um papel central na geopolítica europeia e mundial. Ficará na história alemã, ao lado Willy Brandt, Prêmio Nobel da Paz em 1981, como a grande líder da Alemanha democrática.

Mas a sua longa despedida abre um vazio que paralisa a Alemanha e a União Europeia. No meio dos espasmos do Brexit, a liderança alemã na UE (União Europeia) é excessivamente discreta e na própria Alemanha a situação evolui, requerendo decisões que Merkel parece incapaz de assumir.

Há alguns dias, o historiador e ensaísta britânico Timothy Garton Ash, um dos maiores especialistas da história da Europa contemporânea, publicou no jornal The Guardian um artigo com um título significativo: "Merkel tem que sair, para o bem da Alemanha e da Europa". Para ele, o "centrismo consensual" de Merkel, que presidiu durante anos e preside ainda a grande coalizão partidária entre o CDU e o Partido Social-Democrata (SPD), enfraqueceu os dois partidos e desencorajou o debate político aprofundado essencial à democracia.

Garton Ash não é o único a pensar assim. As eleições gerais de 2017 mostraram que o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), cuja campanha foi centrada na oposição à política pró-imigração de Merkel, atraia uma parte do eleitorado conservador em detrimento do CDU e do seu aliado bávaro, a União Crista Social (CSU).

Nas eleições europeias de maio deste ano, quando foram eleitos os 96 deputados que representam os cidadãos alemães no Parlamento Europeu, a CDU/CSU permaneceu na frente dos outros partidos, mas sempre perdendo eleitores, e a AfD continuou a subir. A surpresa, contudo, ocorreu no campo da esquerda, em que a coalizão liderada pelo partido Verdes (Aliança 90/ Os Verdes) se alçou ao segundo lugar, ultrapassando o SPD.

Frente à alteração do quadro partidário, as duas grandes agremiações de centro-direita e centro-esquerda reagiram, acentuando as clivagens que os separam para recuperar seus eleitores tradicionais.

Na CDU/CSU, Friedrich Merz, líder da ala mais à direita do partido que também se opõe à política favorável à imigração, desafia a liderança de Merkel e AKK. No SPD, a reação à liderança partidária foi ainda mais nítida.

Neste sábado (30), os 450 mil filiados ao SPD elegeram à direção do partido Saskia Esken e Nobert Walter-Borjans, representantes da ala esquerda do partido, e notadamente dos Jusos, organização da juventude social-democrata. Sem atacar diretamente a coalizão formada entre o SPD e o CDU/CSU, os dois candidatos se pronunciaram contra a política de austeridade orçamentaria seguida por Angela Merkel.

De maneira geral, boa parte do SPD estima que a aliança governamental sob o comando de Merkel desgasta os sociais-democratas em benefício dos Verdes. Aliás, Saskia Esken, deputada no Parlamento de Berlim desde 2013, declarou várias vezes que aliança do SPD com a CDU/CSU "não tinha futuro".

Assim, é bem possível que o atual governo alemão se demita antes do final da legislatura, levando à realização de eleições gerais e introduzindo mais um fator de incerteza na política da União Europeia.