Em discurso retórico, Obama omite papel dos EUA no Oriente Médio

Noam Chomsky

Noam Chomsky

Um título da CNN sobre a intenção de Obama para seu discurso no Cairo diz: "Obama deseja atingir a alma do mundo muçulmano". Talvez isso capte sua intenção, mas mais significativo é o conteúdo que a retórica esconde - ou, mais precisamente, omite.

Sobre Israel-Palestina - o discurso não apresentou nada de substância sobre outros temas -, Obama pediu que árabes e israelenses não "apontem dedos" uns aos outros ou "vejam este conflito somente de um lado ou de outro".

O terceiro lado, porém, são os EUA, que tiveram uma participação decisiva na manutenção do conflito. Obama não indicou que o papel dos EUA deveria mudar ou sequer ser avaliado.

Obama mais uma vez elogiou a Iniciativa de Paz Árabe, dizendo que os árabes devem vê-la como "um começo importante, mas não o fim de suas responsabilidades". Como o governo Obama deve vê-la?

Obama e seus assessores estão conscientes de que a Iniciativa reforça o antigo consenso internacional para um acordo de dois estados sobre a fronteira internacional (pré-junho de 1967), talvez com "pequenas e mútuas modificações", para emprestar a linguagem do governo americano. A Iniciativa de Paz Árabe pede que os países árabes normalizem as relações com Israel no contexto do consenso internacional.

Obama pediu que os países árabes procedam com a normalização, estudadamente ignorando o crucial acordo político que é sua precondição. A Iniciativa não pode ser um "começo" se os EUA continuarem recusando aceitar seus princípios básicos, ou mesmo reconhecê-los.

O que Israel deve fazer em troca de os países árabes tomarem medidas para normalizar as relações? A posição mais forte enunciada até agora pelo governo Obama é que Israel deveria aceitar a Fase I do Mapa do Caminho de 2003: "Israel congela toda a atividade de assentamento (incluindo o crescimento natural dos assentamentos)".

O que não se leva em conta no debate sobre os assentamentos é que mesmo que Israel aceitasse a Fase I, deixaria intocado todo o projeto de assentamentos que já foi desenvolvido, com apoio vital dos EUA. Os assentamentos garantem para Israel a posse da valiosa terra dentro do "muro de separação" ilegal (incluindo os principais suprimentos de água da região), assim como o vale do Jordão, assim aprisionando os palestinos em um território limitado que, além disso, está sendo dividido em cantões por projeções de assentamentos/infraestrutura que se estendem muito a leste.

Também não se menciona que Israel está dominando a Grande Jerusalém, o local de seus principais programas de desenvolvimento atuais, deslocando muitos árabes, de modo que o que restar para os palestinos será separado do centro de sua vida cultural, econômica e sociopolítica.

Toda essa atividade de assentamento é uma violação da lei internacional.

Vale a pena lembrar que houve uma ruptura na posição EUA-Israel que bloqueou o consenso internacional. O presidente Clinton reconheceu que os termos que havia oferecido nas fracassadas reuniões de Camp David em 2000 não eram aceitáveis para qualquer palestino, e em dezembro propôs seus "parâmetros", que avançaram mais na direção de um possível acordo. Então ele anunciou que os dois lados haviam aceitado os parâmetros, mas ambos tinham reservas.

Os negociadores israelenses e palestinos se reuniram em Taba, Egito, para acertar as diferenças e fizeram progresso considerável. Uma resolução plena poderia ter sido alcançada dentro de mais alguns dias, eles anunciaram em sua entrevista coletiva conjunta no final. Mas Israel cancelou as negociações prematuramente e elas não foram formalmente retomadas.

Essa simples exceção indica que se um presidente americano estiver disposto a tolerar um acordo diplomático significativo, há grande probabilidade de que seja alcançado.

O governo Bush I foi um pouco além das palavras ao objetar aos projetos de assentamento ilegais dos israelenses, retirando o apoio econômico dos EUA a eles. Em comparação, membros do governo Obama afirmam que essas medidas "não estão em discussão" e que qualquer pressão para que Israel se adapte ao Mapa do Caminho será "principalmente simbólica", como relatou o jornal "The New York Times".

No fundo da viagem ao Oriente Médio está o objetivo do governo Obama, enunciado mais claramente pelo senador John Kerry, presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, de forjar uma aliança entre Israel e os estados árabes "moderados" contra o Irã. Essa aliança serviria como bastião para o domínio dos EUA nessas regiões vitais produtoras de energia.

(O termo "moderado", aliás, não tem nada a ver com o caráter do estado, mas indica sua disposição a aceitar as exigências dos EUA.)

Os serviços ímpares que Israel fornece aos militares e às agências de inteligência dos EUA, e para a indústria de alta tecnologia, lhe permitem uma certa margem para desafiar as ordens de Washington - apesar de correr o risco de ofender seu patrão. O extremismo do atual governo israelense tem sido contido por elementos mais sóbrios.

Se Israel for longe demais, poderia de fato irromper um confronto político com os EUA, do tipo que muitos comentaristas percebem hoje - até agora com pouca base factual - no discurso do Cairo ou em outros lugares. A previsão para a política americana em Israel- Palestina é que provavelmente será a mesma coisa.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Noam Chomsky

Noam Chomsky é um dos mais importantes linguistas do século 20 e escreve sobre questões internacionais.

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