Ideias para Obama

Paul Krugman

Paul Krugman

Na semana passada pediram ao presidente eleito Barack Obama que respondesse aos críticos que diziam que o seu plano de estímulo não seria suficiente para ajudar a economia. Obama respondeu dizendo que deseja ouvir ideias sobre "como gastar dinheiro de forma eficiente e efetiva para reativar a economia".

Ok, eu morderei a isca - embora, conforme explicarei em breve, a metáfora da "reativação instantânea" seja parte do problema.

Primeiro, Obama deveria arquivar a sua proposta de redução de impostos de US$ 150 bilhões para empresas, algo que pouco faria para ajudar a economia. O ideal seria que ele também arquivasse a redução de impostos de renda no valor total de US$ 150 bilhões, embora eu esteja consciente de que trata-se de uma promessa de campanha.

O dinheiro não dissipado com cortes de impostos inefetivos poderia ser utilizado para proporcionar mais alívio aos norte-americanos em dificuldades - aumento dos benefícios aos desempregados, expansão do Medicaid e mais. E por que não dar um início antecipado aos subsídios de seguro saúde - provavelmente da ordem de US$ 100 bilhões ou mais por ano - que serão essenciais para que alcancemos a meta da assistência de saúde universal?

Porém, Obama precisa principalmente aumentar a dimensão do seu plano. Para constatarmos por que, vejamos um novo relatório da sua própria equipe econômica.

No sábado, Christina Romer, a futura chefe do Conselho de Assessores Econômicos, e Jared Bernstein, que será o principal economista assessor do vice-presidente, divulgaram estimativas daquilo que o plano econômico de Obama alcançaria. O relatório deles é ponderado e intelectualmente honesto, o que é uma mudança bem-vinda em relação à matemática nebulosa que prevaleceu nos últimos oito anos.

Mas o documento também deixa claro que o plano não cobre tudo o que é necessário para consertar a economia.

Segundo Romer e Bernstein, o plano de Obama teria o seu impacto máximo no quarto trimestre de 2010. Eles acreditam que, sem o plano, o índice de desemprego naquele trimestre seria de desastrosos 8,8%. Mas, mesmo com o plano, o desemprego seria de 7% - aproximadamente tão elevado quanto agora.

De acordo com o relatório, depois de 2010 os efeitos do plano econômico desapareceriam rapidamente. No entanto, a tarefa de promoção da recuperação econômica integral continuaria irrealizada: o índice de desemprego ainda seria de dolorosos 6,3% no último trimestre de 2011.

Mas a previsão econômica é uma ciência inexata, para dizer o mínimo, e a situação poderia mostrar-se melhor do que o previsto no relatório. Mas ela também poderia revelar-se pior. O próprio relatório admite que "alguns analistas privados preveem índices de desemprego de até 11%, caso não haja ação". E eu estou com Lawrence Summers, um outro membro da equipe econômica de Obama, que declarou recentemente: "Na crise, fazer muito pouco representa um perigo maior do que fazer demais". Infelizmente, esse princípio não se reflete no plano atual.

Então, como é que Obama poderia fazer mais? Incluindo uma quantidade bem maior de investimento público no seu plano - algo que será possível se ele adotar uma visão de prazo mais longo.

O relatório Romer/Bernstein admite que "um gasto de um dólar com infraestrutura é mais efetivo para a criação de empregos do que um dólar em redução de impostos". Entretanto, ele argumenta que "há um limite para a quantidade de investimentos governamentais que podem ser feitos eficientemente em uma estrutura de curto prazo". Mas por que essa estrutura precisa ser de curto prazo?

Até onde sei, a equipe elaboradora de planos de Obama concentrou-se em projetos de investimentos que terão o máximo de efeito em termos de estímulo à criação de empregos no decorrer dos próximos dois anos. Mas, como é provável que o desemprego continue alto bem depois desse período de dois anos, o plano deveria incluir também projetos de investimento de mais longo prazo.

E, tenham em mente que, mesmo um projeto que alcance os maiores resultados em, digamos, 2011, é capaz de proporcionar um significante apoio econômico nos anos anteriores. Caso Obama abandone a metáfora da "reativação instantânea" e aceite a realidade de que precisamos de um programa de vários anos, e não de uma explosão súbita de atividade, ele será capaz de criar um número bem maior de empregos através de investimentos governamentais, mesmo no curto prazo.

Mesmo assim, será que Obama não deveria aguardar até que se comprovasse que um plano maior e de longo prazo é de fato necessário? Não. Neste momento a porção do plano de Obama relativa a investimentos encontra-se limitada devido à carência de projetos prontos para terem início a qualquer hora. Uma quantidade muito maior de investimentos poderá estar a caminho até o final de 2010 ou 2011, caso Obama dê sinal verde agora - mas, se ele esperar demais para decidir, essa janela de oportunidade será perdida.

Mais uma coisa: mesmo com o plano de Obama, o relatório Romer-Bernstein prevê um índice médio de desemprego de 7,3% nos próximos três anos. É um número assustador, grande o suficiente para representar um risco real de que a economia fique presa em uma armadilha deflacionária do tipo japonês.

Portanto, o meu conselho para a equipe de Obama é abandonar a proposta de redução de impostos sobre empresas e, o mais importante, fazer mais, como forma de neutralizar o perigo de fazer muito pouco. E, a maneira de fazer mais é parar de falar sobre reativações instantâneas e olhar de forma mais ampla para as possibilidades de investimentos governamentais.

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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