Sistema de saúde já!

Paul Krugman

Paul Krugman

O mundo inteiro encontra-se em recessão. Mas os Estados Unidos são o único país rico no qual a catástrofe econômica será também uma catástrofe do sistema de saúde - onde milhões de indivíduos perderão os seus planos de saúde juntamente com os seus empregos, e, portanto, ficarão sem acesso ao atendimento essencial.

O que faz com que emerja a questão: por que o governo Obama encontra-se silencioso, pelo menos até o momento, em relação às propostas fundamentais feitas pelo presidente durante a campanha do ano passado - a promessa de garantia de serviços de saúde para todos os norte-americanos?

Falemos sobre a magnitude do desastre que se avizinha quanto ao sistema de saúde.

Todas as previsões econômicas, incluindo aquelas dos próprios economistas do governo Obama, dizem que enfrentaremos um período prolongado de desemprego muito alto. E desemprego alto significa um aumento drástico do número de norte-americanos sem plano de saúde.

Depois que a economia afundou no início desta década, cinco milhões de pessoas entraram para o universo daqueles que não possuem plano de saúde - e isso ocorreu com um índice máximo de desemprego de apenas 6,3%. Desta vez o governo Obama diz que mesmo com o seu plano de estímulo, o desemprego chegará a 8%, e permanecerá acima de 6% até 2012. Muitas previsões independentes são ainda mais pessimistas.

Por que, então, não estamos escutando ninguém falar mais sobre garantir o acesso aos serviços de saúde?

É possível que aqueles que se preocupam com esta questão estejam enxergando um excesso de significados no silêncio do governo. Mas eu vou apresentar três argumentos contrários a uma ação quanto ao sistema de saúde, argumentos estes que eu suspeito que Obama esteja ouvindo, e explicarei por que eles são equivocados.

Primeiro, algumas pessoas têm argumentado que uma grande expansão do acesso ao sistema de saúde seria simplesmente cara demais neste momento, tendo em vista as grandes cifras que estamos prestes a desembolsar para salvar a economia.

Mas uma pesquisa patrocinada pelo Commonwealth Fund demonstra que a implementação da cobertura universal com um plano semelhante às propostas de campanha de Obama custaria "apenas" US$ 104 bilhões em investimentos federais em 2010. É claro que não é uma quantia pequena, mas não é grande quando comparada a, digamos, as reduções de impostos previstas no plano de estímulo econômico de Obama.

É verdade que o custo do serviço de saúde universal será uma despesa contínua, que se estenderá bastante em direção ao futuro. Mas a situação sempre foi essa, e Obama sempre alegou que o seu plano para o sistema de saúde era economicamente possível. As despesas temporárias do plano de estímulo econômico do presidente não deveriam modificar este cálculo.

Segundo, algumas pessoas que fazem parte do círculo de relações de Obama podem estar argumentando que a reforma do sistema de saúde não é uma prioridade neste momento, face à crise econômica.

Mas, ajudar famílias a adquirir planos de saúde como parte de um plano de cobertura universal seria uma forma pelo menos tão efetiva de estimular a economia quanto as reduções tributárias que representam aproximadamente um terço do plano de estímulo financeiro - e isso traria o benefício adicional de ajudar as famílias a navegar pela crise, acabando com uma das maiores fontes da atual ansiedade dos norte-americanos.

Finalmente - e este é, suspeito eu, o verdadeiro motivo para o silêncio do governo em relação ao sistema de saúde -, há a argumentação política de que este é um momento ruim para implementar uma reforma fundamental do sistema de saúde, porque a atenção do país está focada na crise econômica. Mas, se a história serve como guia, esse argumento está precisamente errado.

E ninguém precisa se basear no que eu digo a respeito disso. Rahm Emanuel, o chefe de gabinete da Casa Branca, declarou: "Nunca é desejável que uma crise séria seja desperdiçada". De fato. Franklin Delano Roosevelt foi capaz de criar o Social Security em parte porque a Grande Depressão enfatizou a necessidade de uma rede de segurança social mais forte. E a atual crise representa uma oportunidade real para consertar os grandes buracos ainda existentes nessa rede de segurança, especialmente no que diz respeito ao sistema de saúde.

E Obama não deseja de forma alguma repetir os erros de Bill Clinton, cuja iniciativa nessa área fracassou politicamente em parte porque ele agiu com muita lentidão: quando o governo viu-se pronto para apresentar uma legislação, a economia estava recuperando-se da recessão, e a sensação de urgência diminuía.

Mais uma coisa. Há um furor populista crescendo neste país, à medida que os norte-americanos veem os banqueiros recebendo enormes pacotes de socorro financeiro, enquanto os cidadãos comuns sofrem. Eu concordo com as autoridades do governo que argumentam que esses pacotes de socorro são necessários (embora eu tenha alguns problemas para aceitar os detalhes). Mas eu também concordo com Barney Frank, o presidente do Comitê de Serviços Financeiros da Câmara, que argumenta que - como uma questão de necessidade política, bem como de justiça social - a ajuda aos banqueiros precisa estar vinculada ao fortalecimento da rede de segurança social, de forma que os norte-americanos vejam que o governo está pronto a ajudar todo mundo, e não apenas os ricos e poderosos.

Então, a questão básica é que este não é um momento para deixar que as promessas de garantia de serviço de saúde, feitas durantes a campanha, sejam silenciosamente esquecidas. Este é, ao contrário, um momento para colocar a questão do serviço universal de saúde na frente e no centro do cenário. Sistema de saúde já!

Tradução: UOL

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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