A grande hesitação

Paul Krugman

Paul Krugman

Em seu grande discurso para o Congresso no mês passado, o presidente Barack Obama pediu por atitudes ousadas para consertar os bancos deficientes dos Estados Unidos. "Ainda que o custo da ação seja alto", ele declarou, "posso lhes garantir que o custo da inação seria ainda maior, pois poderia resultar em uma economia que trepidará não por meses ou anos, mas talvez uma década".

Muitos analistas concordam. Mas, entre as pessoas com quem converso, há um sentimento crescente de frustração, até de pânico, em relação ao fracasso de Obama em colocar em prática o que promete. A verdade é que, quando se trata de lidar com os bancos, a administração Obama está hesitante. A política está paralisada em um mesmo padrão.

É assim que funciona: primeiro, funcionários, normalmente de forma extraoficial, testam na imprensa um plano para salvar os bancos. Essa pesquisa de opinião é logo criticada por comentadores informados.

Então, algumas semanas depois, a administração expõe um novo plano. No entanto, esse plano é apenas uma versão mal disfarçada do plano anterior, algo que todos os envolvidos logo percebem. E então o ciclo começa de novo.

Por que ficam oferecendo planos que ninguém mais acha convincente?

Porque, de alguma forma, executivos importantes na administração Obama e no Federal Reserve (banco central americano) se convenceram de que ativos de risco, chamados esses dias de "lixo tóxico", na verdade valem muito mais do que qualquer um está disposto a pagar por eles - e se esses ativos tivessem um preço adequado, todos nossos problemas se resolveriam.

Assim, em recente entrevista, o secretário do Tesouro Tim Geithner tentou fazer uma distinção entre o "valor econômico inerente básico" dos ativos de risco e o "valor artificialmente rebaixado" que todos esses ativos comandam agora. Em transações recentes, até papéis de classificação AAA foram vendidos por menos de 40% do valor, mas Geithner parece pensar que elas valem mais, muito mais.

E o trabalho do governo, ele declarou, é "fornecer o financiamento para ajudar a manter esses mercados em funcionamento", empurrando o preço do lixo tóxico para cima, onde ele deveria estar.

Além disso, os executivos parecem acreditar que dar preços adequados para o lixo tóxico vai curar os males de todas nossas principais instituições financeiras. No início desta semana, perguntaram a Ben Bernanke, o presidente do Federal Reserve, sobre o problema dos "zumbis" - instituições financeiras que estão efetivamente falidas, mas são mantidas vivas por auxílio governamental. "Não sei de nenhuma grande instituição zumbi no sistema financeiro dos EUA", ele declarou, e continuou a negar especificamente que a AIG - AIG! - fosse um zumbi.

Essa é a mesma AIG que, incapaz de honrar suas promessas de cobrir outras instituições financeiras quando títulos não são pagos, já recebeu $ 150 bilhões em ajuda e acaba de obter um compromisso para mais $30 bilhões.

A verdade é que o plano de Bernanke-Geithner - o plano que a administração fica testando, em versões levemente diferentes - não vai decolar.

Tome como exemplo a última encarnação do plano: uma proposta para fazer empréstimos a juros baixos para investidores privados dispostos a comprar ativos de risco. Isso certamente elevaria o preço do lixo tóxico porque ofereceria uma proposta do tipo cara-ou-coroa. Da forma como foi descrito, o plano deixaria que os investidores lucrassem se o preço dos ativos subisse, mas que saíssem ilesos caso os preços despencassem.

Mas seria suficiente para sanar o sistema bancário? Não.

Pense assim: ao usar os fundos do contribuinte para subsidiar os preços do lixo tóxico, a administração encheria de benefícios todos aqueles que cometessem o erro de comprar a coisa. Alguns desses benefícios fomentariam indiretamente o que tivesse necessidade, escorando os balanços patrimoniais de instituições financeiras importantes. Mas a maior parte do benefício iria para pessoas que não precisam ou não merecem ser resgatadas.

E isso significa que o governo teria de gastar trilhões de dólares para restabelecer a saúde do sistema financeiro, o que iria, por sua vez, tanto garantir um violento protesto público, quanto aumentar as já grandes preocupações a respeito do déficit. (Sim, até fortes defensores de estímulos fiscais realmente se preocupam com perdas.) Falando de forma realista, isso simplesmente não vai acontecer.

Então por que essa ideia zumbi - por mais que a matem, ela continua voltando - está tão firme? Temo que seja porque os executivos ainda não estão dispostos a encarar os fatos. Eles não querem enfrentar o terrível estado das grandes instituições financeiras porque é muito difícil resgatar um banco praticamente insolvente sem assumir seu controle, pelo menos temporariamente. E a nacionalização temporária, aparentemente, ainda é considerada impensável.

Mas essa recusa em encarar os fatos significa, na prática, uma ausência de ação.

E eu compartilho dos temores do presidente: a inação pode resultar em uma economia que trepida, não por meses ou anos, mas por uma década ou mais.

Tradução: Lana Lim

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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