Atrás da curva

Paul Krugman

Paul Krugman

O plano do presidente Barack Obama para estimular a economia foi "enorme", "gigantesco", "amplo". Assim foi dito ao povo americano, especialmente pelos noticiários na televisão, nos dias anteriores à votação do pacote. Pelas notícias, talvez a pessoa pensasse que a única questão era se o plano não seria grande e ambicioso demais.

Ainda assim, muitos economistas, inclusive eu, de fato argumentaram que o plano era pequeno e cuidadoso demais. Os últimos dados confirmam esses temores - e sugerem que as políticas econômicas do governo Obama já estão ficando atrás da curva.

Para ver como são ruins os números, considere o seguinte: as propostas de orçamento do governo, divulgadas há menos de duas semanas, usaram como base de cálculo o índice de desemprego médio de 8,1% para todo este ano. Na realidade, o desemprego atingiu este patamar em fevereiro - e está subindo rapidamente.

O emprego já caiu mais nesta recessão do que na crise de 1981-82, considerada a pior desde a Grande Depressão. Como resultado, a promessa de Obama que seu plano criará ou salvará 3,5 milhões de empregos até o final de 2010 parece tímida, para dizer o mínimo. É uma promessa plausível - seus economistas usaram estimativas sólidas dos impactos das políticas de impostos e gastos. Mas 3,5 milhões de empregos daqui a quase dois anos não é o suficiente diante de uma economia que já perdeu 4,4 milhões de vagas e está perdendo outras 600.000 por mês.

Há atualmente três grandes questões sobre política econômica. Primeiro, o governo entende que não está fazendo o suficiente? Segundo, está preparado para fazer mais? Terceiro, o Congresso vai apoiar políticas mais fortes?

Sobre as duas primeiras questões, achei a entrevista mais recente de Obama ao "The New York Times" nada confortante.

"Nossa crença e expectativa é que vamos colocar todos os pilares no lugar para a recuperação neste ano", declarou o presidente - uma crença e uma expectativa que não são corroboradas por dados ou modelos que eu conheça. Certamente, os líderes devem parecer calmos e controlados. Mas diante de dados abismais, essa observação pareceu fora da realidade.

E não houve pista na entrevista de que estão preparados para fazer mais.

Uma solução real para os problemas do sistema bancário poderia ajudar a compensar o tamanho inadequado do pacote de estímulo, então foi bom ouvir que Obama passa ao menos uma hora por dia com seus assessores econômicos, discutindo como estão lidando com os mercados financeiros. Contudo, ele ridicularizou os pedidos de ação decisiva, dizendo que vinham de "blogs" (de fato, vêm de muitos outros lugares, inclusive de um presidente do banco central) e sugeriu que os críticos estão querendo "nacionalizar todos os bancos" (algo que ninguém está propondo).

Essa negativa - junto com o fracasso em anunciar planos mais amplos para a reestruturação dos bancos- significa que a Casa Branca decidiu avançar na frente financeira se baseando na recuperação econômica para resgatar os bancos em vez de ao contrário. E com o plano de estímulo pequeno demais para gerar a recuperação econômica... bem, você entendeu.

Cedo ou tarde o governo entenderá que precisa fazer mais. Mas quando voltar a pedir dinheiro, o Congresso concordará?

Os republicanos agora estão defendendo firmemente a visão que não devemos fazer nada para responder à crise econômica - exceto cortar impostos, o que eles sempre querem, independentemente das circunstâncias. Se Obama voltar e pedir uma segunda rodada de estímulo, eles não vão responder com ajuda, e sim dirão que as políticas do governo fracassaram.

O público em geral, por outro lado, defende uma ação forte. De acordo com uma recente pesquisa da "Newsweek", a maioria dos eleitores apóia o estímulo e, mais surpreendente, muitos acreditam que mais gastos serão necessários. Mas será que este apoio ainda existirá, digamos, daqui a seis meses?

Além disso, uma ampla maioria acredita que o governo está gastando demais para ajudar grandes instituições financeiras. Isso sugere que a política financeira do governo de dar dinheiro em troca de nada eventualmente minará seu capital político.

Então, este é o cenário que me assusta: setembro de 2009, o desemprego passou de 9% e, apesar da primeira rodada de gastos de estímulo, continua subindo. Obama finalmente admite que é necessário mais estímulo.

Mas ele não consegue aprovar seu novo plano no Congresso porque o índice de aprovação de suas políticas econômicas mergulhou, em parte porque suas políticas são consideradas fracassadas, em parte porque as políticas de criação de emprego estão associadas, na mente pública, com resgates bancários profundamente impopulares. E como resultado, a recessão assola, sem freio.

Ok, essa é uma advertência, não uma previsão. A política econômica, contudo, está ficando para trás e há um perigo real e crescente que nunca chegue a acompanhar o ritmo.

Tradução: Deborah Weinberg

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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