Qual é o problema da Europa?

Paul Krugman

Paul Krugman

Estou preocupado com a Europa. De fato, estou preocupado com o mundo todo -não há portos seguros contra a tempestade econômica global. Mas a situação na Europa me preocupa ainda mais do que a situação nos EUA.

Vamos deixar claro que não estou prestes a reciclar a reclamação padrão americana que os impostos da Europa são altos demais, e seus benefícios, generosos demais. Os grandes governos de bem-estar social não são culpados pela atual crise da Europa. De fato, como explicarei, são um fator mitigante.

O perigo claro e presente na Europa atualmente vem de uma diferente direção -o fracasso do continente em responder à crise financeira.

A Europa fracassou em termos de política monetária e fiscal: está enfrentando uma desaceleração ao menos tão severa quanto os EUA, mas ainda assim está fazendo muito menos para combater a crise.

Do lado fiscal, a comparação com os EUA é impressionante. Muitos economistas, inclusive eu, argumentaram que o plano de estímulo do governo Obama é pequeno demais, dada a profundidade da crise. Mas as ações dos EUA deixam qualquer coisa que a Europa está fazendo no chinelo.

A diferença na política monetária é igualmente impressionante. O Banco Central Europeu foi muito menos ativo do que o Federal Reserve; foi lento em cortar as taxas de juros (de fato aumentou-as em julho) e evitou medidas fortes para descongelar os mercados de crédito.

A única coisa funcionando em favor da Europa é aquela que gera mais críticas -o tamanho e a generosidade de seus governos de bem-estar social, que estão acolchoando o impacto da retração econômica.

Isso não é pouco. Seguro saúde garantido e seguro desemprego generoso asseguram que, ao menos até agora, não haja tanto sofrimento humano na Europa como nos EUA. E esses programas também ajudarão a sustentar contra a queda no consumo.

No entanto, tais "estabilizadores automáticos" não são substitutos para uma ação positiva.

Por que a Europa não está agindo? Fraca liderança é parte da história. Autoridades em bancos europeus não compreenderam a profundidade da crise e ainda parecem estranhamente complacentes. Para ouvir qualquer coisa nos EUA comparável às diatribes ignorantes do ministro das finanças alemão a pessoa tem que escutar, bem, aos republicanos.

Há, contudo, um problema mais profundo: a integração monetária e econômica da Europa foi longe demais em relação às suas instituições políticas. As economias das muitas nações europeias estão quase tão ligadas quanto as economias dos muitos Estados americanos -e a maior parte da Europa compartilha uma moeda comum. Contudo, diferente dos EUA, a Europa não tem o tipo de instituições que cobrem todo o continente, necessárias para lidar com uma crise de todo o continente.

Essa é uma importante razão para a falta de ação fiscal: não há governo em uma posição de assumir a responsabilidade pela economia europeia como um todo. O que a Europa tem, em vez disso, são governos nacionais, cada um relutante em incorrer em grandes dívidas para financiar um estímulo que vai transmitir muitos de seus benefícios, se não a maior parte, a eleitores em outros países.

Talvez esperássemos uma política monetária fosse mais forte. Afinal, apesar de não haver um governo europeu, há um Banco Central Europeu. Mas este não é como o Fed, que pode se dar ao luxo de ser audacioso porque é patrocinado por um governo nacional único -um governo que já se moveu para compartilhar os riscos da audácia do Fed e certamente cobrirá as perdas do Fed se seus esforços para descongelar os mercados financeiros derem errado. O BCE, que tem que responder a 16 governos em discussão, não pode contar com o mesmo nível de apoio.

A Europa, em outras palavras, está se saindo estruturalmente fraca em uma época de crise.

A maior questão é o que vai acontecer às economias europeias que prosperaram no ambiente fácil de alguns anos atrás, a Espanha em particular.

Por grande parte da última década, a Espanha foi a Flórida da Europa, sua economia expandindo com um enorme boom imobiliário especulativo. Como na Flórida, a expansão se tornou explosão de bolha. A Espanha precisa encontrar novas fontes de renda e de emprego para substituir as vagas perdidas na construção.

No passado, a Espanha teria procurado maior competitividade desvalorizando sua moeda. Mas agora está no euro -e a única forma de avançar parece ser um processo sofrido de corte salarial. Isso teria sido difícil em boas épocas; será quase inconcebivelmente doloroso se, como parece provável, a economia europeia como um todo estiver em recessão e tenda para a deflação pelos próximos anos.

Será que isso tudo significa que a Europa estava errada em se deixar integrar tanto? Será que significa, em particular, que a criação do euro foi um erro? Talvez.

Mas a Europa ainda pode provar que os que duvidam estão errados, se os políticos começarem a demonstrar maior liderança. Farão isso?

Prêmio Nobel de Economia admite a gravidade da crise


Tradução: Deborah Weinberg

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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