A mística do mercado

Paul Krugman

Paul Krugman

Lawrence Summers, o diretor do Conselho Econômico Nacional, respondeu recentemente às críticas ao plano do governo Obama de subsidiar aquisições privadas de ativos bancários tóxicos. "Não conheço um só economista que não acredite que os mercados de capital funcionais nos quais os ativos podem ser comercializados sejam uma boa ideia", declarou ele na última segunda-feira (23).

Deixemos de lado o problema de determinar se um mercado no qual os compradores precisam ser cooptados a participar pode ser de fato descrito como "mais funcional". Mesmo assim, Summers necessita sair um pouco mais do seu escritório. Pouquíssimos economistas reformularam a sua opinião favorável em relação aos mercados de capital e negociações de ativos à luz da crise atual.

Mas nos últimos dias ficou cada vez mais claro que funcionários graduados do governo Obama ainda estão presos à mística do mercado. Eles ainda acreditam na mágica do mercado financeiro e na grande capacidade dos magos que realizam essa mágica.

A mística do mercado nem sempre ditou a política financeira. Os Estados Unidos emergiram da Grande Depressão com um sistema bancário rigidamente regulado, que transformou as finanças em um negócio parado, e até mesmo entediante. Os bancos atraíam os clientes abrindo filiais em locais convenientes, e às vezes dando um ou dois brindes. Eles usavam o dinheiro atraído desta forma para conceder mais empréstimos, e era assim que as coisas funcionavam.

E o sistema financeiro não era apenas maçante. Ele era também, pelos padrões de hoje, pequeno. Mesmo durante os anos de grande prosperidade - o mercado super dinâmico da década de 1960 - os financiamentos e os seguros respondiam juntos por menos de 4% do produto interno bruto dos Estados Unidos. A relativa falta de importância do setor financeiro refletia-se na lista de ações que compunham a Média Industrial Dow Jones, que até 1982 não continha uma só companhia financeira.

Tudo isso dá a impressão de ser primitivo segundo os padrões de hoje. Mas aquele sistema financeiro chato e primitivo atendeu a uma economia que dobrou a qualidade de vida no decorrer de uma geração.

Após 1980, é claro, um sistema financeiro muito diferente emergiu. Na era Reagan, concentrada na desregulação, o sistema bancário antigo foi gradativamente substituído por negócios em grande escala. O novo sistema era muito maior do que o antigo regime. Às vésperas da crise atual, os financiamentos e os seguros representavam 8% do produto interno bruto, mais do dobro da fatia registrada nos anos sessenta. No início do ano passado, o Dow continha cinco companhias financeiras - gigantes como a AIG, o Citigroup e o Bank of America.

E o sistema financeiro pode ter se tornado tudo, menos maçante. Ele atraiu muitas das mentes mais afiadas e tornou um punhado de indivíduos imensamente ricos.

Na base do novo e glamouroso mundo financeiro encontrava-se o processo de securitização. Os títulos de empréstimo não ficavam mais com a instituição que concedia o financiamento. Eles eram vendidos para terceiros, que fatiavam e trituravam dívidas individuais para sintetizar novos ativos. Hipotecas subprime, dívidas de cartão de crédito, financiamentos de automóveis - tudo era jogado no liquidificador no sistema financeiro. Por outro lado, supostamente, surgiram os adocicados investimentos AAA. E os magos financeiros foram regiamente recompensados por supervisionar esse processo.

Mas os magos eram fraudes, quer tivessem ou não consciência disso, e a mágica deles acabou se revelando nada mais do que um conjunto de truques baratos de picadeiro. Acima de tudo, a promessa fundamental da securitização - de que ela tornaria o sistema financeiro mais robusto ao diluir o risco de forma mais ampla - acabou revelando-se uma mentira. Os bancos utilizaram a securitização para aumentar, e não reduzir, o risco, e nesse processo tornaram a economia mais vulnerável à desorganização financeira.

Cedo ou tarde, as coisas estavam fadadas a dar errado, e finalmente foi isso o que aconteceu. O Bear Stearns fracassou; o Lehman fracassou, mas, acima de tudo, a securitização fracassou.

E isso nos remete de volta à forma como o governo Obama está abordando a crise financeira.

Grande parte da discussão sobre o plano dos ativos tóxicos tem se concentrado nos detalhes e nas aritméticas, o que não é incorreto. Porém, indo além disso, o que surpreende é a visão expressa tanto no conteúdo do plano financeiro quanto nas declarações das autoridades administrativas. Fundamentalmente, o governo parece acreditar que assim que os investidores se acalmarem, a securitização - o o negócio dos financiamentos - poderá retomar aquilo que abandonou há um ou dois anos.

É preciso reconhecer que as autoridades estão pedindo mais regulações. De fato, na quinta-feira (26/03), o secretário do Tesouro, Tim Geithner, anunciou planos para o aumento das regulações, planos estes que, não faz muito tempo, teriam sido considerados radicais.

Mas a visão subjacente continua sendo a de um sistema financeiro mais ou menos igual ao que era há dois anos, embora um pouco mais controlado por novas regras.

Como o leitor pode adivinhar, eu não compartilho essa ideia. Não creio que o problema seja apenas um pânico financeiro. Acredito que ele representa o fracasso de um modelo inteiro de sistema bancário, de um setor financeiro hipertrofiado que gera mais danos do que benefícios. Não acho que o governo Obama poderá trazer a securitização de volta à vida, e não creio que ele deva tentar fazer isso.

Tradução: UOL

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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