América, a maculada

Paul Krugman

Paul Krugman

Há dez anos, a capa da revista "Time" exibia Robert Rubin, o então secretário do Tesouro, Alan Greenspan, o então presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), e Lawrence Summers, o então vice-secretário do Tesouro. A "Time" chamou os três de "o comitê para salvar o mundo", lhes dando o crédito por conduzir o sistema financeiro global em meio a uma crise que parecia assustadora na época, apesar de ter sido apenas um pequeno soluço diante do que estamos enfrentando agora.

Todos os homens na capa eram americanos, mas ninguém considerou aquilo estranho. Afinal, em 1999, os Estados Unidos eram os líderes inquestionáveis da resposta global à crise. Aquele papel de liderança era apenas em parte baseado na riqueza americana; também refletia, em um grau importante, a estatura dos Estados Unidos como modelo. O país, todo mundo pensava, era aquele que sabia como conduzir as finanças do modo acertado.

Como os tempos mudaram.

Não dê atenção ao fato de dois membros do comitê já terem sucumbido à maldição da capa da revista, o colapso da reputação que ocorre com frequência após a adulação pela mídia. (Summers, atualmente o chefe do Conselho Econômico Nacional, ainda permanece firme.) Bem mais importante é quanto nossas alegações de solidez financeira - alegações frequentemente invocadas enquanto admoestávamos outros países quanto à necessidade de mudarem seus modos - provaram ser vazias.

De fato, atualmente os Estados Unidos estão se parecendo com o Bernie Madoff das economias: por muitos anos eram vistos com respeito, até mesmo admiração, mas ao final revelaram ser uma fraude.

Agora é doloroso ler uma palestra dada por Summers no início de 2000, enquanto a crise econômica dos anos 90 passava. Ao discutir as causas da crise, Summers apontou para as coisas que os países atingidos pela crise careciam - e isto, de modo implícito, os Estados Unidos dispunham. Estas coisas incluíam "bancos bem capitalizados e supervisionados" e auditoria contábil corporativa confiável e transparente. Ai, ai.

Um dos analistas citados por Summers naquela palestra, a propósito, foi o economista Simon Johnson. Em um artigo na atual edição da "The Atlantic", Johnson, que atuou como economista-chefe do FMI e atualmente é professor do MIT, declara que as dificuldades atuais americanas "lembram chocantemente" as crises em locais como Rússia e Argentina - incluindo o papel-chave exercido pelos capitalistas que favorecem os amigos.

Nos Estados Unidos como no terceiro mundo, ele escreve, "os interesses das elites - financistas, no caso americano- exerceram um papel central na criação da crise, fazendo apostas cada vez maiores, com o apoio implícito do governo, até o colapso inevitável. Mais alarmante, eles agora estão usando sua influência para impedir precisamente as reformas que precisamos, e rápido, para retirar a economia de seu mergulho em parafuso".

Não é de se estranhar, então, que um artigo no "Times" de domingo sobre a resposta que o presidente Barack Obama receberá na Europa ter sido intitulado "Capitalismo de Língua Inglesa sob Júdice".

Agora, para sermos justos, é preciso dizer que os Estados Unidos não foram nem de longe o único país com bancos enlouquecidos. Muitos líderes europeus ainda estão em negação a respeito dos problemas econômicos e financeiros do continente, que podem ser tão profundos quanto os nossos - apesar das redes de seguro social mais fortes de seus países fazerem com que experimentem bem menos sofrimento humano. Ainda assim, é um fato que a crise custou aos Estados Unidos muito de sua credibilidade, e com ela grande parte de sua capacidade de liderar.

E isso é algo muito ruim.

Como muitos outros economistas, eu tenho revisitado a Grande Depressão, à procura de lições que possam nos ajudar a não repetir o mesmo. E uma coisa que se destaca na história do início dos anos 30 é a extensão com que a resposta do mundo à crise foi aleijada pela incapacidade de cooperação entre as maiores economias do mundo.

Os detalhes de nossa crise atual são muito diferentes, mas a necessidade de cooperação é igual. Obama acertou na semana passada ao declarar: "Todos nós teremos que dar passos visando erguer a economia. Nós não queremos uma situação em que alguns países façam esforços extraordinários e outros países não".

Mas esta é exatamente a situação em que estamos. Eu não acredito nem mesmo que os esforços econômicos americanos são adequados, mas são bem maiores do que a maioria dos outros países ricos estão dispostos a realizar. E a cúpula do G20 nesta semana deve ser uma ocasião para Obama repreender e pressionar os líderes europeus, em particular, a empregarem seu peso.

Mas atualmente os líderes estrangeiros não estão dispostos a ser admoestados por autoridades americanas, mesmo quando -como neste caso- os americanos estão certos.

A crise financeira teve muitos custos. E um deles é o dano à reputação dos Estados Unidos, algo que perdemos quando nós, e o mundo, mais precisamos dela.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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