Brotos verdes e brilhos de esperança

Paul Krugman

Paul Krugman

Ben Bernanke, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), vê "brotos verdes". O presidente Barack Obama vê "brilhos de esperança". E o mercado de ações passa por uma sequência de dias positivos.

Logo, já é hora de achar que está tudo certo? Aqui estão quatro motivos para cautela com o panorama econômico.

1. As coisas ainda vão piorar. A produção industrial atingiu seu ponto mais baixo em 10 anos. O setor de construção permanece incrivelmente fraco. As execuções hipotecárias, que diminuíram enquanto as empresas de empréstimo hipotecário aguardavam pelos detalhes do plano do governo Obama para o setor, estão aumentando de novo.

O máximo que se pode dizer é que há sinais esparsos de que as coisas estão piorando mais lentamente - que a economia não está despencando tão rapidamente quanto antes. E realmente falo de esparsos: a mais recente edição do Livro Bege, o levantamento periódico do Fed sobre as condições das empresas, informa que "cinco dos doze Distritos notaram uma moderação no ritmo do declínio". Viva.

2. Algumas das boas notícias não são convincentes. A maior notícia positiva dos últimos dias veio dos bancos, que estão anunciando ganhos surpreendentemente bons. Mas alguns destes relatórios de ganhos parecem um tanto... engraçados.

O Wells Fargo, por exemplo, anunciou seu melhor ganho trimestral. Mas os ganhos informados por um banco não são números concretos, como os de vendas; por exemplo, eles dependem muito da quantidade de ativos que o banco dispõe para cobrir futuras perdas esperadas com seus empréstimos. E alguns analistas expressaram uma dúvida considerável em relação às declarações do Wells Fargo, assim como outras questões contábeis.

Enquanto isso, o Goldman Sachs anunciou um salto enorme nos lucros do quarto trimestre de 2008 para o primeiro trimestre de 2009. Mas como os analistas rapidamente notaram, o Goldman mudou sua definição de "trimestre" (em resposta a uma mudança em seu status legal), para que -sem brincadeira- o mês de dezembro, que por acaso foi um péssimo para o banco, desaparecesse deste levantamento.

Eu não quero me exceder neste assunto. Talvez os bancos realmente tenham passado de perdas profundas a bons lucros em tempo recorde. Mas o ceticismo é algo natural nesta era de Madoff.

Ah, e para aqueles que esperam que os "testes de estresse" do Departamento do Tesouro deixem tudo em ordem, o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, disse que "vocês verão de uma forma sistemática e coordenada a transparência de determinar e exibir para todos os envolvidos os resultados desses testes de estresse". Não, eu também não sei o que isso significa.

3. Ainda podem ocorrer novas quedas. Mesmo na Grande Depressão, as coisas não mergulharam de cabeça até o fundo. Houve, em particular, uma pausa na queda por cerca de um ano e meio - mais ou menos o ponto em que estamos agora. Mas então ocorreu uma série de falências de bancos em ambos os lados do Atlântico, combinadas com a adoção de algumas políticas desastrosas que visavam defender o padrão ouro moribundo, e a economia mundial caiu de mais outro penhasco.

Isso pode acontecer de novo? Bem, o setor de imóveis comerciais está ruindo, as perdas dos cartões de crédito estão aumentando e ninguém sabe ainda quão ruins as coisas ficarão no Japão e no Leste Europeu. Nós provavelmente não repetiremos o desastre de 1931, mas está longe de certo que o pior já passou.

4. Mesmo quando estiver terminado, não estará terminado. A recessão de 2001 durou oficialmente apenas oito meses, terminando em novembro daquele ano. Mas o desemprego continuou crescendo por mais um ano e meio. A mesma coisa aconteceu após a recessão de 1990-1991. E há todos os motivos para acreditar que acontecerá desta vez também. Não se surpreenda se o desemprego continuar crescendo 2010 adentro.

Por quê? Recuperações "em forma de V", na qual o emprego se recupera rapidamente, só ocorrem quando há muita demanda reprimida. Em 1982, por exemplo, a venda de imóveis estava sendo esmagada pelas altas taxas de juros, de forma que quando ocorreu um alívio por parte do Fed, as vendas de imóveis aumentaram. Não é o que acontecerá desta vez: hoje, a economia está deprimida, por assim dizer, porque incorremos em dívidas demais e construímos shopping centers demais, e ninguém está no clima para sair em uma nova onda de gastança.

O emprego no final se recuperará - ele sempre se recupera. Mas provavelmente não acontecerá depressa.

Bem, agora que deixei todo mundo deprimido, qual é a resposta? Perseverança.

A história mostra que um dos maiores riscos em políticas, diante de uma recessão econômica severa, é um otimismo prematuro. Franklin Delano Roosevelt respondeu aos sinais de recuperação reduzindo pela metade a Administração de Progresso de Obras e aumentando impostos; a Depressão retornou prontamente com força total. O Japão afrouxou seus esforços na metade de sua década perdida, assegurando outros cinco anos de estagnação.

Os economistas do governo Obama entendem isso. Eles dizem todas as coisas certas sobre manter o curso. Mas há um risco real de que toda a conversa sobre brotos verdes e brilhos de esperança fomente uma complacência perigosa.

Então aqui está meu conselho, tanto para o público quanto para os autores de políticas: não contem com o ovo da recuperação antes da galinha botá-lo.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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