A falência da Irlanda

Paul Krugman

Paul Krugman

"Qual é o pior cenário para a economia mundial?", perguntou meu interlocutor. Foi apenas no dia seguinte que cheguei à resposta certa: os Estados Unidos poderiam se transformar na Irlanda.

E o que há de tão ruim nisto? Bem, o governo irlandês agora prevê que o PIB deste ano cairá mais de 10% em relação ao seu pico, cruzando a linha que às vezes é usada para distinguir entre uma recessão e uma depressão.

Mas há mais do que isso: para satisfazer credores nervosos, a Irlanda está sendo forçada a aumentar impostos e cortar gastos do governo diante de uma recessão econômica -políticas que aprofundarão ainda mais a recessão.

E é esta perda de opções políticas que temo que possa acontecer ao restante de nós. O slogan "Erin go bragh", geralmente traduzido como "Irlanda para sempre", é tradicionalmente usado como uma declaração da identidade irlandesa. Mas também poderia, eu temo, ser lida como uma previsão para a economia mundial.

Como a Irlanda foi parar na situação atual? Ao ser exatamente como nós (americanos), apenas um pouco mais. Como a Islândia, a Irlanda saltou com ambos os pés no admirável mundo novo dos mercados globais sem supervisão. No ano passado, a Fundação Heritage declarou a Irlanda a terceira economia mais livre do mundo, atrás apenas de Hong Kong e Cingapura.

Uma parte da economia irlandesa que se tornou particularmente livre foi o setor bancário, que usou sua liberdade para financiar uma monstruosa bolha imobiliária. A Irlanda se tornou na prática uma versão fria e sem cobras do litoral da Flórida.

Então a bolha estourou. O colapso do setor de construção colocou a economia em um mergulho em parafuso, enquanto o despencar dos preços dos imóveis residenciais deixou muitas pessoas devendo mais do que o valor de suas casas. O resultado, como nos Estados Unidos, foi um aumento da onda de calotes e perdas pesadas para os bancos.

E os problemas dos bancos são em grande parte responsáveis pela colocação do governo irlandês em uma camisa de força no que se refere a políticas.

Às vésperas da crise, a Irlanda parecia estar em boa forma, fiscalmente falando, com um orçamento equilibrado e um baixo nível de dívida pública. Mas a receita do governo -que se tornou altamente dependente do boom imobiliário- sofreu um colapso juntamente com a bolha.

Ainda mais importante, o governo irlandês se viu tendo que assumir a responsabilidade pelos erros de banqueiros privados. Em setembro passado, a Irlanda buscou escorar a confiança em seus bancos oferecendo uma garantia do governo às suas dívidas -colocando em risco o dinheiro dos contribuintes para cobrir perdas potenciais de mais de duas vezes o PIB do país, equivalente a US$ 30 trilhões para os Estados Unidos.

A combinação de déficits e exposição aos prejuízos dos bancos lançou dúvidas a respeito da solvência a longo prazo da Irlanda, refletida em um alto ágio de risco sobre a dívida irlandesa e alertas a respeito de possíveis rebaixamentos pelas agências de classificação de crédito.

Daí as novas políticas duras. No início deste mês, o governo irlandês anunciou simultaneamente um plano para compra de muitos dos ativos podres dos bancos -colocando ainda mais o dinheiro dos contribuintes em risco- aumentando ao mesmo tempo os impostos e cortando gastos, para tranqüilizar os credores.

O governo irlandês está fazendo a coisa certa? Enquanto leio o debate entre os especialistas irlandeses, há enormes críticas ao plano para os bancos, com muitos dos principais economistas do país pedindo por uma nacionalização temporária. (A Irlanda já nacionalizou um grande banco.) Os argumentos desses economistas irlandeses são semelhantes aos dos vários economistas americanos, eu inclusive, sobre como lidar com nosso próprio estrago bancário.

Mas não há muito desacordo a respeito da necessidade de austeridade fiscal. No que se refere à resposta à recessão, a Irlanda parece realmente sem opções, além de torcer por uma recuperação liderada pelas exportações se e quando o restante do mundo se recuperar.

E o que tudo isso diz a respeito daqueles de nós que não somos irlandeses?

Por ora, os Estados Unidos não estão confinados em uma camisa de força fiscal do tipo irlandesa: os mercados financeiros ainda consideram a dívida americana mais segura do que qualquer outra coisa.

Mas não podemos presumir que será sempre assim. Infelizmente, nós não poupamos para um dia difícil: graças aos cortes de impostos e a guerra no Iraque, os Estados Unidos saíram do "boom de Bush" com uma relação muito maior entre dívida do governo e PIB do que antes. E se somarmos à relação outros 30 ou 40 pontos -algo não fora de questão caso a política econômica não seja bem conduzida nos próximos poucos anos- nós poderemos começar a enfrentar nossos próprios problemas com o mercado de títulos.

Sem entrar muito em detalhes, este é um motivo para eu estar tão preocupado com o plano do governo Obama para os bancos. Se, como alguns temem, os fundos dos contribuintes acabem fornecendo lucros aos operadores financeiros em vez de consertar o que precisa ser consertado, nós poderemos não dispor do dinheiro para voltar e tentar fazer certo.

E a lição da Irlanda é que você realmente não vai querer se colocar em uma posição onde terá que punir sua economia para salvar seus bancos.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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