Krugman: recuperando a alma americana

Paul Krugman

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"Nada será obtido gastando nosso tempo e energia atribuindo culpa pelo passado." Assim declarou o presidente Barack Obama, após sua decisão louvável de divulgar os memorandos legais que seu antecessor usou para justificar a tortura. Algumas pessoas nos establishments político e da mídia apoiaram sua posição. Nós precisamos olhar para frente, não para trás, eles dizem. Nada de processos, por favor; nada de investigações; nós estamos ocupados demais.

E de fato existem desafios imensos: uma crise econômica, uma crise de saúde, uma crise ambiental. Rever os abusos cometidos nos últimos oito anos, independente de quão ruins tenham sido, é um luxo com o qual não podemos arcar?

Não, não é, porque os Estados Unidos são mais do que uma coleção de políticas. Nós somos, ou pelo menos costumávamos ser, uma nação de ideais morais. Mas nunca antes nossos líderes traíram tanto tudo o que nossa nação representa. "Este governo não tortura pessoas", declarou o ex-presidente George W. Bush, mas torturava e todo o mundo sabia.

E o único modo de recuperarmos nossa bússola moral, não apenas pelo bem de nossa posição no mundo, mas pelo bem de nossa própria consciência nacional, é investigar como isso aconteceu e, se necessário, processar os responsáveis.

E quanto ao argumento de que investigar os abusos do governo Bush impediria os esforços para lidar com as crises atuais? Mesmo se fosse verdade -mesmo se a verdade e a justiça viessem a um alto preço- este supostamente seria um preço que deveríamos pagar: leis não são para serem aplicadas apenas quando conveniente. Mas há algum motivo real para acreditarmos que o país pagaria um alto preço pela responsabilidade?

Por exemplo, a investigação dos crimes da era Bush realmente desviaria tempo e energia necessários em outro lugar? Vamos ser claros: o tempo e energia de quem estamos falando?

Tim Geithner, o secretário do Tesouro, não seria desviado de seus esforços para resgatar a economia. Peter Orszag, o diretor de orçamento, não seria desviado de seus esforços para reformar a área de saúde. Steven Chu, o secretário de Energia, não seria desviado de seus esforços para conter a mudança climática. Mesmo o presidente não precisaria, e de fato nem deveria, ser envolvido. Tudo o que ele faria seria deixar o Departamento de Justiça fazer seu trabalho -o que ele supostamente deve fazer em qualquer caso- e não ficar no caminho de qualquer investigação pelo Congresso.

Eu não sei quanto a você, mas eu acho que os Estados Unidos são capazes de expor a verdade e aplicar a lei mesmo enquanto cuidam de outros assuntos.

Ainda assim, você poderia argumentar -e muitos o fazem- que rever os abusos dos anos Bush minaria o consenso político que o presidente precisa para promover sua agenda.

Mas a resposta para isso é, que consenso político? Ainda há, a propósito, um número significativo de pessoas em nossa vida política que estão do lado dos torturadores. Mas são as mesmas pessoas que são incansáveis em seus esforços para bloquear a tentativa de Obama de lidar com nossa crise econômica, e que serão igualmente incansáveis em sua oposição quando ele tentar lidar com o atendimento de saúde e a mudança climática. O presidente não pode perder a boa vontade deles, porque eles nunca ofereceram nenhuma.

Dito isso, há muitas pessoas em Washington que não apoiaram os torturadores, mas ainda assim gostariam de não rever o que aconteceu nos anos Bush.

Algumas delas provavelmente apenas não querem uma cena feia; meu palpite é de que o presidente, que claramente prefere visões enaltecedoras do que um confronto, está neste grupo. Mas a feiúra já está ali, e fingir que não está não a fará ir embora.

Outros, eu suspeito, prefeririam não rever aqueles anos porque não querem ser lembrados de seus próprios pecados de omissão.

Pois o fato é que autoridades no governo Bush instituíram a tortura como política, conduziram enganosamente o país a uma guerra que queriam travar e, provavelmente, torturaram pessoas em uma tentativa de extrair "confissões" que justificariam a guerra. E, durante a marcha para a guerra, grande parte do establishment político e da mídia fez vista grossa.

É difícil, assim, não ser cínico quando algumas pessoas que deveriam ter se manifestado contra o que estava acontecendo, mas não o fizeram, agora declaram que devemos esquecer toda aquela era -pelo bem do país, é claro.

Lamento, mas o que realmente devemos fazer pelo bem do país é investigar tanto a tortura quanto a marcha para a guerra. Essas investigações deveriam ser, quando apropriado, seguidas por processos -não por vingança, mas porque esta é uma nação de leis.

Nós precisamos fazer isso pelo bem de nosso futuro. Pois não se trata de olhar para trás, mas sim de olhar para frente - porque se trata de recuperar a alma americana.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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