Krugman: uma salvação de custo acessível

Paul Krugman

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A eleição de 2008 acabou com o reinado do arremedo de ciência na capital do nosso país, e as chances de uma ação significativa a respeito da mudança climática, provavelmente por meio de um sistema de comércio de emissões, aumentaram significativamente.

Mas os adversários da ação alegam que a limitação das emissões teria efeitos devastadores sobre a economia americana. Logo, é importante entender que assim como a negação de que a mudança climática está acontecendo é arremedo de ciência, as previsões de desastre econômico caso tentarmos fazer algo a respeito da mudança climática é arremedo de economia.

Sim, a limitação das emissões teria seus custos. Como economista formado, eu me irrito quando entusiastas da "economia verde" insistem que a proteção do meio ambiente seria só ganho, sem dor.

Mas as melhores estimativas disponíveis sugerem que os custos de um programa de limitação de emissões seriam modestos, desde que implantado gradualmente. E nos comprometermos agora poderia na verdade ajudar na recuperação da atual recessão econômica.

Mas primeiro vamos conversar sobre os custos.

Um sistema de comércio de carbono elevaria o preço de tudo que, direta ou indiretamente, leve à queima de combustíveis fósseis. A eletricidade, em particular, se tornaria mais cara, porque geração demais ocorre em usinas a carvão.

As companhias elétricas poderiam reduzir sua necessidade de compra de permissões ao limitar suas emissões de dióxido de carbono - e todo o sentido do comércio de carbono é, é claro, incentivarem as empresas a fazerem exatamente isso. Mas os passos que dariam para limitar as emissões, como a adoção de outras fontes de energia ou a captura e sequestro de grande parte do dióxido de carbono que emitem, sem dúvida aumentariam seus custos.

Se as permissões de emissões forem leiloadas - como devem ser - a receita obtida poderia ser usada para dar aos consumidores um desconto ou reduzir outras taxas, compensando parcialmente os preços mais altos. Mas a compensação não seria completa. Os consumidores acabariam mais pobres do que estariam sem uma política contra a mudança climática.

Mas quanto mais pobres? Não muito, dizem pesquisadores cuidadosos, como aqueles da Agência de Proteção Ambiental ou do Grupo de Análise de Políticas e Previsão de Emissões do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Mesmo com limitações severas, diz o grupo do MIT, os americanos consumiriam apenas 2% menos em 2050 do que consumiriam na ausência de limites de emissões. Isso ainda deixaria espaço para um grande aumento no padrão de vida, cortando apenas 1/20 de ponto percentual da taxa anual média de crescimento.

Certamente há muitos que insistem que os custos seriam muito maiores. É estranho dizer, entretanto, que essas afirmações costumam sempre vir de pessoas que alegam acreditar que as economias de livre mercado são maravilhosamente flexíveis e inovadoras, que podem facilmente transcender quaisquer limitações impostas pelos recursos mundiais limitados de petróleo, terra cultivável ou água doce.

Então por que eles não acham que a economia é capaz de lidar com as limitações às emissões de gases do efeito estufa? Segundo o esquema de comércio, direitos de emissões seriam apenas outro recurso escasso, não diferente em termos econômicos da oferta de terra cultivável.

Não é preciso dizer que pessoas como Newt Gingrich, que diz que o sistema de comércio de emissões "puniria o povo americano", não pensam dessa forma. Elas apenas pensam "capitalismo bom, governo ruim". Mas se você realmente acredita na magia do mercado, você também deveria acreditar que a economia é capaz de lidar muito bem com a limitação das emissões.

Logo, nós podemos arcar com uma forte política voltada à mudança climática. E nos comprometermos com esta política pode na verdade nos ajudar em nossa atual situação econômica difícil.

No momento, o maior problema diante de nossa economia é a queda do investimento das empresas. Elas não veem motivo para investir, já que estão repletas de capacidade ociosa, graças ao estouro da bolha imobiliária e à queda do consumo.

Mas suponha que o Congresso torne obrigatória uma limitação gradual das emissões, a partir de daqui dois ou três anos. Isso não teria efeito imediato sobre os preços. Mas criaria um grande incentivo para novos investimentos - investimentos em usinas elétricas de baixa emissão, em fábricas eficientes em energia e mais.

Colocando de outra forma, um compromisso em reduzir os gases do efeito estufa teria, de curto a médio prazo, o mesmo efeito econômico de uma grande inovação tecnológica: ela daria às empresas um motivo para investir em novo equipamento e instalações mesmo diante da capacidade ociosa. E dado o estado atual da economia, isso é exatamente o que o médico receitou.

Este estímulo econômico de curto prazo não é o principal motivo para adoção da política contra a mudança climática. O importante é que o planeta está em risco, e quanto mais esperarmos, pior será. Mas é um motivo extra para agirmos rapidamente.

Logo, podemos arcar com o custo de salvar o planeta? Sim, podemos. E agora seria um bom momento para começarmos.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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