Krugman: destacando o positivo

Paul Krugman

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Viva! A crise bancária acabou! Vamos festejar! Ok, talvez não.

No final, a divulgação de fato do muito badalado teste de tensão dos bancos, na quinta-feira, foi algo como um anticlímax. Todo mundo sabia mais ou menos o que os resultados diriam: alguns bancos importantes precisam levantar mais capital, mas no geral, os bancos estão bem. Mesmo antes dos resultados serem anunciados, o secretário do Tesouro, Tim Geithner, nos disse que eles seriam "tranquilizadores".

Mas se você de fato pode se sentir tranquilizado depende de quem você é: um banqueiro ou alguém tentando ganhar a vida em outra profissão.

Eu não vou entrar no debate sobre a qualidade dos testes de tensão, exceto repetir o que muitos observadores notaram: os reguladores não dispunham dos recursos para fazer um levantamento realmente cuidadoso dos ativos dos bancos, e em muitos casos eles permitiram que os bancos barganhassem o que os resultados diriam. Certamente não foi uma auditoria rigorosa.

Mas se concentrar no processo pode distrair do quadro maior. O que realmente estamos vendo aqui é uma decisão por parte do presidente Barack Obama e suas autoridades de buscar um resultado favorável mesmo que de forma desorganizada em meio a esta crise financeira, na esperança de que os bancos possam conseguir voltar à saúde.

É uma estratégia que pode funcionar. Afinal, no momento os bancos estão emprestando a taxas de juros elevadas, enquanto virtualmente não pagam nenhum juro sobre seus depósitos (garantidos pelo governo). Com o tempo, os bancos estarão ricos de novo.

Mas é importante ver a estratégia como ela é e entender os riscos.

Lembre-se, foram os mercados, e não o governo, que na prática declararam os bancos subcapitalizados. E apesar dos indicadores do mercado que apontam uma desconfiança nos bancos, como as taxas de juros sobre os títulos dos bancos e os preços dos swaps de crédito, terem caído um pouco nas últimas semanas, eles ainda se encontram em níveis que seriam considerados inconcebíveis antes da crise.

Como resultado, as chances são de que o sistema financeiro não funcionará normalmente até que agentes cruciais se tornem muito mais fortes financeiramente do que estão agora. Mas o governo Obama decidiu não fazer nada dramático para recapitalizar os bancos.

A economia pode se recuperar mesmo com bancos fracos? Talvez. Os bancos não expandirão o crédito tão cedo, mas os emprestadores apoiados pelo governo se apresentaram para preencher a lacuna. O Federal Reserve (Fed, o banco central americano) expandiu seu crédito em US$ 1,2 trilhão ao longo do último ano; Fannie Mae e Freddie Mac se transformaram nas principais fontes de financiamento hipotecário. Logo, talvez seja possível que a economia conserte os bancos em vez do contrário.

Mas há muitas coisas que podem sair errado.

Não está claro que o crédito do Fed, Fannie e Freddie pode substituir plenamente um sistema bancário saudável. Se não puder, a estratégia de avançar desordenadamente se transformará em uma receita para uma era prolongada de alto desemprego e fraco crescimento ao estilo do Japão.

Na verdade, um período de vários anos de fraqueza econômica parece provável de qualquer forma. A economia pode não estar mais despencando, mas é muito difícil ver de onde virá uma recuperação real. E se a economia permanecer deprimida por muito tempo, os bancos estarão em um maior apuro do que os testes de tensão - que só analisaram dois anos à frente - são capazes de registrar.

Finalmente, dada a possibilidade de perdas maiores no futuro, a evidente não disposição do governo de tomar os bancos ou deixá-los falir cria uma situação de "cara, eles vencem, coroa, nós perdemos". Se tudo sair bem, os banqueiros ganharão muito. Se a atual estratégia fracassar, os contribuintes serão forçados a pagar por outro resgate.

Mas o que mais me preocupa na direção em que as políticas estão seguindo não é nada disso. É minha sensação de que as perspectivas de uma reforma fundamental no sistema financeiro estão desaparecendo.

Alguém se lembra do caso de H. Rodgin Cohen, o proeminente advogado de Nova York descrito pelo "The New York Times" como a "eminência parda de Wall Street"? Ele brevemente virou notícia em março, quando teria retirado seu nome após ser considerado para o cargo de vice-secretário do Tesouro.

Bem, no início desta semana, Cohen disse a uma platéia que o futuro de Wall Street não será muito diferente do seu passado recente, declarando: "Eu estou longe de convencido de que havia algo inerentemente errado com o sistema". Ei, e aquela coisinha a respeito de causar a pior recessão global desde a Grande Depressão? Deixa para lá.

Essas são palavras assustadoras. Elas sugerem que apesar do Federal Reserve e do governo Obama continuarem insistindo que estão comprometidos com uma maior regulamentação financeira e maior supervisão, pessoas de dentro de Wall Street falam da brandura da política bancária até o momento como um sinal de que em breve poderão voltar a jogar os mesmos jogos de antes.

Logo, como eu disse, apesar dos banqueiros poderem considerar "tranquilizadores" os resultados do teste de tensão, o restante de nós deve ficar com muito, muito medo.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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