Krugman: Harry, Louise e Barack

Paul Krugman

Paul Krugman

Será o fim de Harry e Louise?

Harry e Louise eram um casal fictício que aparecia nas propagandas da indústria de planos de saúde em 1993, preocupados com o que aconteceria se "burocratas do governo" começassem a tomar decisões de atendimento de saúde. A campanha ajudou a matar o plano para o atendimento de saúde de Bill Clinton, permanecendo, desde então, como um símbolo da capacidade de interesses especiais poderosos de bloquear a reforma da saúde.

Mas no sábado, funcionários do governo empolgados me telefonaram para dizer que desta vez o complexo médico-industrial (o termo deles, não meu) está oferecendo ajuda.

Seis grandes entidades do setor -incluindo o America's Health Insurance Plans (planos de saúde de América, AHIP), um descendente do lobby que criou Harry e Louise- enviaram uma carta ao presidente Barack Obama esboçando um plano para controle dos custos do atendimento de saúde. Além disso, a carta endossa implicitamente muito do que as autoridades do governo dizem a respeito da economia na área de saúde.

Há motivos para suspeitar deste presente? Pode apostar -e chegarei a isso daqui a pouco. Mas antes de mais nada, à primeira vista, é uma notícia tremendamente boa.

Os signatários da carta dizem que estão desenvolvendo propostas para ajudar o governo a atingir sua meta de cortar 1,5 ponto percentual da taxa de crescimento dos gastos no atendimento de saúde. Isso pode não parecer muito, mas é na verdade imenso: atingir esta meta pouparia US$ 2 trilhões ao longo da próxima década.

Como os custos serão contidos? Há poucos detalhes, mas o setor claramente anda lendo Peter Orszag, o diretor de orçamento.

Em seu emprego anterior, como diretor do Escritório de Orçamento do Congresso, Orszag argumentou que os Estados Unidos gastam demais em alguns tipos de atendimento de saúde com pouco ou nenhum benefício médico, enquanto gasta muito pouco em outros tipos de atendimento, como prevenção e tratamento de condições crônicas. Juntando os dois, ele concluiu que "existem oportunidades substanciais de reduzir custos sem prejudicar o atendimento de saúde em geral".

Certamente a carta da indústria de saúde fala de "reduzir o atendimento de saúde usado em excesso e o subutilizado, ao alinhar incentivos de qualidade e eficiência". Também pega um tema relacionado favorito de Orszag, pedindo pela "aderência às melhores práticas e terapias baseadas em evidências". No geral, é exatamente o que o médico, hã, o diretor de orçamento prescreveu.

Antes de começarmos a celebrar, entretanto, nós temos que fazer a pergunta óbvia. Este presente é um cavalo de Troia? Afinal, várias das organizações que enviaram a carta foram no passado grandes vilãs no que se refere à política de saúde.

Eu já mencionei a AHIP. Também há a Pharmaceutical Research and Manufacturers of America (PhRMA), o grupo de lobby da indústria farmacêutica que ajudou na tramitação da Lei de Modernização do Medicare de 2003 -uma lei que impedia o Medicare (o sistema público de saúde para idosos e incapacitados) de negociar o preço dos medicamentos e assegurava pagamentos gordos imensos para os planos de saúde privados. De fato, um dos signatários da nova carta é o ex-deputado federal Billy Tauzin, que foi o responsável pela tramitação do projeto de lei no Congresso e que imediatamente após sua aprovação deixou o serviço público para se tornar o presidente ricamente remunerado da PhRMA.

Há todo o motivo para ser cínico a respeito da motivação destes agentes. Lembre-se de que aquilo que o restante de nós chama de custos do atendimento de saúde, eles chamam de renda.

O que possivelmente está acontecendo aqui é que grupos-chave de interesse perceberam que a reforma da saúde vai ocorrer independente do que façam, e que se alinharem ao Partido do Não apenas lhe negaria uma cadeira à mesa. (Os republicanos, afinal, ainda condenam a pesquisa sobre quais procedimentos médicos são eficazes e quais não como sendo um plano desastrado para privar os americanos de sua liberdade de escolha.)

Eu peço fortemente ao governo Obama que permaneça duro nas negociações à frente. Em particular, a AHIP certamente tentará usar a boa vontade criada por sua posição em relação ao patrulhamento do custo para matar uma parte importante da reforma da saúde: dar aos americanos a escolha de comprar um plano de saúde público como alternativa aos planos privados. O governo não deve ceder neste ponto.

Mas não vamos ser negativos demais. O fato do complexo médico-industrial estar tentando moldar a reforma da saúde em vez de bloqueá-la é um ótimo presságio. Parece que os Estados Unidos finalmente terão o que todos os demais países avançados já têm: um sistema que garanta o atendimento essencial de saúde a todos seus cidadãos.

E um controle sério dos custos mudaria tudo, não apenas para a saúde, mas para o futuro fiscal dos Estados Unidos. Como Orszag enfatizou, o aumento dos custos da saúde é o principal motivo para as projeções orçamentárias de longo prazo parecerem tão sombrias. A redução da taxa de aumento dos custos fará o futuro parecer mais positivo.

Mas eu ainda não conto isso como sendo algo certo. Mas é uma das melhores notícias que escuto em muito tempo.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

UOL Cursos Online

Todos os cursos