Krugman: China, o império do carbono

Paul Krugman

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Eu vi o futuro, e ele não vai funcionar.

Estes deveriam ser tempos de esperança para os ambientalistas. A "junk science" (termo pejorativo usado para designar práticas e dados científicos espúrios ou falsos) não domina mais Washington. O presidente Barack Obama falou energicamente sobre a necessidade de implementar ações contra a mudança climática; as pessoas com quem converso estão cada vez mais otimistas quanto à possibilidade de que o Congresso crie em breve um sistema de cap-and-trade (sistema de comércio internacional de emissões) que estabeleça limites para as emissões de gases causadores do efeito estufa, e no qual esses limites tornem-se cada vez mais estritos com o passar do tempo. E, assim que os Estados Unidos agirem, podemos esperar que grande parte do mundo seguirá a nossa liderança.

Mas isto ainda não resolve o problema representado pela China, onde eu estive durante a maior parte da semana passada.

Assim como todo mundo que visita a China, fiquei surpreso com a escala do desenvolvimento do país. Até mesmo os aspectos irritantes - passei grande parte do meu tempo apreciando a Grande Muralha do Congestionamento de Trânsito - são efeitos colaterais do sucesso econômico do país.

Mas a China não pode continuar seguindo a rota atual, porque o planeta não é capaz de suportar o impacto.

O consenso científico a respeito da probabilidade do aquecimento global tornou-se bem mais pessimista no decorrer dos últimos anos. De fato, as últimas projeções feitas por cientistas climáticos respeitados beiram o apocalíptico. Por que? Porque o índice de aumento das emissões de gases causadores do efeito estufa está atingindo ou superando os piores cenários possíveis.

E o aumento das emissões da China - que já é o maior produtor mundial de dióxido de carbono - é um dos principais motivos para este novo pessimismo.

As emissões da China, que são provenientes em grande parte das suas usinas termoelétricas movidas a carvão, dobraram de 1996 a 2006. O ritmo de aumento das emissões registrado nesse período foi muito maior do que o da década anterior. E parece que essa tendência deve continuar: em janeiro deste ano a China anunciou os seus planos para continuar dependendo do carvão como a sua principal fonte de energia, e informou que, para alimentar o seu crescimento econômico, aumentará a sua produção de carvão em 30% até 2015. Esta é uma decisão que, por si só, anulará quaisquer reduções de emissões em outras áreas do planeta.

Assim sendo, o que se deve fazer a respeito do problema da China?

Nada, dizem os chineses. Todas as vezes em que abordei a questão durante a minha visita, ouvi declarações indignadas de que não é justo querer que a China limite o seu uso de combustíveis fósseis. Afinal, declararam os chineses, o Ocidente não se deparou com nenhum empecilho do gênero durante o seu desenvolvimento; embora a China possa ser a maior fonte mundial de emissões de dióxido de carbono, as suas emissões per capita estão muito abaixo dos níveis norte-americanos; e, aliás, a maior parte do aquecimento global que já ocorreu não se deve à China, e sim ao carbono emitido no passado pelas nações ricas de hoje.

E eles têm razão. É injusto querer que a China enfrente obstáculos que não enfrentamos quando a nossa economia estava em ascensão. Mas essa injustiça não modifica o fato de que, se deixarmos a China alcançar o nível de esbanjamento que caracterizou o passado do Ocidente, a Terra, como a conhecemos, estará condenada.

Além de denunciar as injustiças históricas, os chineses também insistiram que não devem ser responsabilizados pelos gases causadores do efeito estufa que emitem ao fabricar produtos para os consumidores estrangeiros. Mas eles recusam-se a aceitar a implicação lógica dessa visão - que a responsabilidade deveria ser assumida por esses consumidores estrangeiros, e que os consumidores que compram produtos chineses deveriam pagar uma "tarifa de carbono" que refletisse as emissões associadas à produção dessas mercadorias. Isso, segundo os chineses, violaria os princípios do livre comércio.

Desculpem, mas as consequências climáticas da produção chinesa precisam levadas em consideração em algum outro lugar. E, de qualquer maneira, o problema da China não é tanto aquilo que ela produz, e sim como produz. Lembrem-se, a China atualmente emite mais dióxido de carbono do que os Estados Unidos, ainda que o seu produto interno bruto seja apenas a metade do estadunidense (e, os Estados Unidos, por sua vez, são um emissor colossal de dióxido de carbono se comparado à Europa ou ao Japão).

A boa notícia é que a própria ineficiência da utilização de energia pela China proporciona um grande espaço para aperfeiçoamentos. Com as políticas corretas, a China poderia continuar crescendo rapidamente sem aumentar as emissões de carbono. Mas primeiro ela precisa entender que mudanças de políticas são necessárias.

Existem indicações, em declarações que emanam da China, de que os governantes do país estão começando a perceber que a sua atual posição é insustentável. Mas eu suspeito que eles não tenham percebido o quão rapidamente todo esse jogo está prestes a mudar.

À medida que os Estados Unidos e outros países avançados mobilizam-se finalmente para enfrentar a mudança climática, eles passarão a ter também mais poder moral para enfrentar aquelas nações que se recusam a agir. Mais cedo do que a maioria das pessoa pensa, países que se recusam a limitar as suas emissões de gases causadores do efeito estufa enfrentarão sanções, provavelmente na forma de taxas sobre as suas exportações. Eles reclamarão amargamente, afirmando que são vítimas de protecionismo, mas, e daí? A globalização não ajudará muito se o próprio globo tornar-se inabitável.

É hora de salvar o planeta. E, gostando ou não, a China terá que fazer a sua parte.

Tradução: UOL

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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