Krugman: plano de traição

Paul Krugman

Paul Krugman

Não demorou muito. Menos de duas semanas se passaram desde que grande parte do complexo médico-industrial fez a grande exibição pública de trabalhar ao lado do presidente Barack Obama na reforma da saúde e a traição já está em andamento. De fato, agora está claro que quando se encontraram com o presidente, fingindo ter interesse em cooperar, as seguradoras estavam se preparando para exercer o mesmo papel destrutivo que exerceram na última vez em que a reforma da saúde esteve na agenda.

Então aqui está a pergunta: Obama vai fazer vista grossa para a realidade do que está acontecendo, tentando preservar a aparência de cooperação? Ou cumprirá sua promessa, feita durante a campanha, de assumir a ofensiva contra os interesses especiais caso fiquem no caminho da reforma?

A história até o momento: em 11 de maio, a Casa Branca convocou uma coletiva de imprensa para anunciar que grandes agentes na área de atendimento de saúde, incluindo a Associação Americana dos Hospitais e o grupo de lobby Planos de Saúde da América, se uniram em apoio ao esforço nacional para controlar os custos do atendimento de saúde.

O documento do encontro, é preciso dizer, foi um Obama clássico em sua mensagem de pós-partidarismo e, hã, esperança. "Por tempo demais, a política e a avaliação do risco individual impediram nosso país de lidar com esta crescente crise", ele dizia, acrescentando: "O povo americano está ávido em deixar para trás os métodos da velha Washington".

Mas apenas três dias depois, a associação dos hospitais insistiu que não tinha, na verdade, prometido o que o presidente disse que ela prometeu -que não fechou nenhum compromisso com a meta do governo de reduzir a taxa com que os custos do atendimento de saúde estão subindo, de 1,5 ponto percentual ao ano. E o chefe do lobby das seguradoras disse que a ideia era apenas "aumentar" a economia, seja lá o que isso signifique.

Enquanto isso, a indústria dos planos de saúde está ocupada fazendo lobby junto ao Congresso para bloquear um elemento crucial da reforma da saúde, a opção pública -isto é, a oferta para os americanos do direito de comprar um plano de saúde diretamente do governo, assim como dos planos de saúde privados. E pelo menos algumas seguradoras estão preparando uma grande campanha de difamação.

Na segunda-feira, apenas uma semana após a aparição para fotos na Casa Branca, o "Washington Post" noticiou que a Blue Cross Blue Shield, da Carolina do Norte, estava preparando uma série de propagandas atacando a opção pública. O planejamento desta campanha deve ter começado há um bom tempo.

O "Post" tem os storyboards das propagandas, e o resultado é semelhante às infames propagandas do casal Harry e Louise, que ajudaram a matar a reforma da saúde em 1993. Nelas aparecem americanos com problemas tendo o médico de sua escolha negado, ou forçados a esperar meses por consultas, por burocratas do governo sem rosto. É uma imagem assustadora que poderia fazer sentido se os planos de saúde privados nos oferecessem liberdade de escolha de médicos, sem espera para os procedimentos médicos. Mas meu plano não é assim. O seu é?

"Nós podemos fazer muito melhor do que um sistema de saúde dirigido pelo governo", diz uma narração em uma das propagandas. Para a qual a resposta óbvia é, se for verdade, então por que não fazem? Por que negar aos americanos a chance de rejeitar um plano de saúde do governo se é realmente tão ruim?

Nenhuma das reformas propostas que estão na mesa forçaria as pessoas a optarem por um plano de saúde do governo. No máximo, elas ofereceriam aos americanos a opção de adquirir esse plano.

E a meta das seguradoras é negar aos americanos esta opção. Elas temem que muitas pessoas optarão pelo plano do governo em vez de ter que lidar com seguradoras privadas que, no mundo real e diferente do mundo de suas propagandas, são mais burocráticas do que qualquer agência do governo, negam rotineiramente aos seus segurados a escolha do médico e frequentemente se recusam a cobrir o custo do tratamento.

O que nos traz de volta a Obama.

Durante a campanha das primárias democratas, Obama argumentou que os Clinton fracassaram em sua tentativa de reforma da saúde, em 1993, por terem sido insuficientemente inclusivos. Ele prometeu, de sua parte, reunir todos os envolvidos, incluindo as seguradoras, em uma "grande mesa". E aquele evento de 11 de maio visava, é claro, mostrar precisamente esta estratégia de grande mesa em ação.

Mas e se os grupos de interesse participassem da grande mesa e então bloqueassem a reforma? Na campanha, Obama assegurou aos eleitores que ele endureceria: "Se as seguradoras e laboratórios farmacêuticos começarem a veicular propagandas com Harry e Louise, eu veicularei minhas próprias propagandas como presidente. Eu irei à televisão e direi 'Harry e Louise estão mentindo'".

A pergunta agora é se ele realmente falou sério.

O complexo médico-industrial acha que o presidente está blefando. Ele lustrou sua imagem ao comparecer à grande mesa e prometer cooperação, então voltou imediatamente a fazer tudo ao seu alcance para bloquear qualquer mudança real. As seguradoras e laboratórios farmacêuticos estão, na prática, apostando que Obama ficará com medo de denunciar a duplicidade deles.

Cabe a Obama provar que estão errados.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

UOL Cursos Online

Todos os cursos