Krugman: Reagan conseguiu

Paul Krugman

Paul Krugman

"Este projeto de lei é a legislação mais importante para as instituições financeiras dos últimos 50 anos. Ele fornece uma solução de longo prazo para instituições de empréstimos e poupança com problemas. De modo geral, acho que acertamos em cheio."

Foi o que declarou Ronald Reagan em 1982, ao assinar a Lei Garn-Saint Germain das Instituições Depositárias.

Ele estava, como ficou claro, equivocado a respeito da solução dos problemas das instituições de empréstimos e poupança. Pelo contrário, a lei transformou os problemas modestos das instituições de empréstimos e poupança em uma verdadeira catástrofe. Mas ele estava certo quanto ao impacto daquela lei. Quanto ao que ele acertou cheio... bem, finalmente chegou mais de 25 anos depois, na forma da pior crise econômica desde a Grande Depressão.

Quanto mais procuramos pelas origens deste desastre atual, mais claro fica que a mudança de curso chave, a mudança que tornou esta crise inevitável, aconteceu no início dos anos 80, durante os anos Reagan.

Os ataques à economia Reagan normalmente se concentram no aumento da desigualdade e na irresponsabilidade fiscal. De fato, Reagan deu início a uma era em que uma pequena minoria se tornou muito rica, enquanto as famílias da classe trabalhadora viam apenas ganhos magros. Ele também quebrou as antigas regras da prudência fiscal.

Sobre este último: tradicionalmente, o governo dos Estados Unidos incorre em déficits orçamentários significativos apenas em tempos de guerra ou emergência econômica. A dívida federal como percentual do PIB caiu constantemente desde o final da Segunda Guerra Mundial até 1980. Mas o endividamento começou a crescer novamente sob Reagan; ele caiu novamente nos anos Clinton, mas voltou a crescer no governo Bush, nos deixando despreparados para lidar com a emergência que enfrentamos agora.

O aumento da dívida pública, no entanto, encolheu diante do aumento da dívida privada, que só foi possível graças à desregulamentação financeira. A mudança das regras financeiras americanas foi o maior legado de Reagan. E é um presente de grego.

O efeito imediato da lei Garn-Saint Germain, como eu disse, foi a transformação das instituições de um problema em uma catástrofe. A crise das instituições de empréstimos e poupança foi apagada da hagiografia de Reagan, mas o fato é que a desregulamentação na prática deu ao setor -cujos depósitos eram garantidos pelo governo- uma licença para apostar com o dinheiro do contribuinte, na melhor das hipóteses, ou simplesmente saqueá-lo, na pior. Quando o governo encerrou os livros do caso, os contribuintes já tinham perdido US$ 130 bilhões, na época em que isso era muito dinheiro.

Mas também houve um efeito de longo prazo. As mudanças legislativas da era Reagan basicamente colocaram um fim às restrições do New Deal aos empréstimos para hipotecas -restrições que, em particular, limitavam a capacidade das famílias comprarem imóveis sem uma entrada substancial em dinheiro.

Essas restrições foram implantadas nos anos 30 por líderes políticos que tinham acabado de testemunhar uma crise financeira terrível e tentavam impedir outra. Mas em 1980, a lembrança da Depressão tinha desaparecido. O governo, declarava Reagan, é o problema e não a solução; a magia do mercado deve ser libertada. E assim as medidas de precaução foram eliminadas.

Juntamente com padrões mais frouxos de empréstimo para outros tipos de crédito ao consumidor, isso levou a uma mudança radical no comportamento americano.

Nem sempre fomos uma nação de grandes dívidas e pouca poupança: nos anos 70, os americanos poupavam quase 10% de sua renda, um pouco mais do que nos anos 60. Foi só depois da desregulamentação de Reagan que a parcimônia desapareceu gradualmente do modo de vida americano, culminando na taxa quase zero de poupança que predominava às vésperas da grande crise. A dívida dos lares era de apenas 60% da renda quando Reagan assumiu o governo, praticamente a mesma que era na época do governo Kennedy. Em 2007, ela chegou a 119%.

Tudo isso, nos foi assegurado, era uma coisa boa: claro, os americanos estavam acumulando dívidas e não guardavam nada de sua renda, mas suas finanças pareciam em ordem assim que lavada em consideração a valorização de seus imóveis e de seus portfólios de ações. Oops.

Agora, as causas próximas da crise econômica atual se encontram em eventos que ocorreram muito depois de Reagan deixar o cargo -no acúmulo global de reservas criado pelos superávits da China e de outros países, e na bolha imobiliária gigante que o acúmulo de reservas ajudou a criar.

Mas foi a explosão do endividamento no último quarto de século que tornou a economia americana tão vulnerável. Os mutuários endividados além de sua capacidade estavam destinados a se tornarem inadimplentes em massa quando a bolha imobiliária estourasse e o desemprego começasse a aumentar.

Essa inadimplência, por sua vez, causaria o caos em um sistema financeiro que -também graças em grande parte à desregulamentação da era Reagan- assumiu riscos demais com muito pouco capital.

Há muitos a quem culpar atualmente. Mas os principais vilões por trás da confusão em que estamos foram Reagan e seu círculo de conselheiros - homens que esqueceram as lições da última grande crise financeira dos Estados Unidos e nos condenaram a repeti-la.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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